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De “O que você tem?” para “O que você deixará?”

Como a Africa Roundtable redefiniu a generosidade como missão ao longo do tempo e da geografia

Redina Kolaneci 27 fev 2026

“Estamos levantando recursos para plantar igrejas na África.”
“Ajude-nos a alimentar os órfãos da África.”
“Junte-se a nós na tradução da Bíblia para comunidades africanas não alcançadas.”

Quem já teve contato com campanhas de arrecadação de ministérios internacionais e agências missionárias sediadas no Norte Global reconhecerá facilmente essas expressões.

Talvez elas sejam familiares demais.

Durante décadas – na verdade, séculos – a África tem sido vista como um continente à espera de receber o que os países ricos têm a oferecer: as boas‑novas de Jesus, recursos financeiros, materiais de discipulado, formação de líderes, soluções importadas para os seus problemas.

Observe os bem-produzidos folhetos ministeriais. Leia as campanhas por e‑mail. Assista aos vídeos dirigidos aos doadores. Você verá uma narrativa notavelmente consistente: A África recebe; o Norte Global envia. A África aprende; o Norte Global ensina. A África tem necessidades; o Norte Global as provê.

Infelizmente, esse padrão vai além dos apelos de arrecadação por doações e se estende aos recursos criados para ajudar as igrejas a crescer em mordomia e generosidade. Ministérios sediados no Norte Global desenvolvem currículos sobre generosidade e depois convidam as igrejas africanas a “contextualizá-los”. Isso, na prática, significa: traduzi-los para o seu idioma, adaptar os exemplos à sua cultura e usá-los em seu contexto.

Parte-se da suposição – muitas vezes não explícita, mas claramente presente – de que o olhar teológico, a abordagem pedagógica e o direcionamento estratégico já foram definidos em outro lugar. Aos amigos e parceiros de ministério africanos, resta apenas ajustar a forma de apresentação…

Mas aqui está a pergunta que deveria nos incomodar: Alguma vez paramos para prestar atenção no que as igrejas e os ministérios africanos já estão fazendo?

Já paramos por tempo suficiente para perguntar quais teologias da generosidade os cristãos africanos desenvolveram a partir de sua própria interação com as Escrituras e de sua própria experiência prática?

Alguma vez investigamos seriamente o impacto missionário que as igrejas africanas já produzem por meio de seus esforços de captação de recursos, suas doações e suas estratégias de sustentabilidade?

De modo geral, a resposta sincera é NÃO.

É por isso que a Rede Temática Lausanne de Captação de Fundos para o Ministério (MFN) decidiu fazer algo substancialmente diferente, promovendo a Africa Roundtable, uma mesa-redonda sobre a Teologia da Generosidade e da Captação de Recursos, realizada em Limuru, no Quênia, de 2 a 6 de fevereiro de 2026.

O formato da Africa Roundtable foi intencional e contracultural. O evento foi realizado apenas para convidados. Todos os palestrantes e praticamente todos os participantes eram africanos: líderes de igrejas e ministérios, teólogos, professores universitários, mobilizadores de missões e estrategistas de captação de recursos, provenientes de 12 países da África.

A MFN convocou e sediou o encontro, mas não esteve à frente de sua condução.

Não queríamos promover um evento em que especialistas estrangeiros viessem ao Quênia para ensinar aos africanos como praticar generosidade e captar recursos da forma “correta”. Nossa proposta foi criar um espaço no qual líderes africanos pudessem articular suas próprias teologias, compartilhar suas histórias, refletir sobre seus dados, celebrar seus êxitos, identificar seus próprios desafios e oferecer percepções valiosas – não apenas para a África, mas para a igreja global.

Essa distinção tem profunda importância para todos os membros da equipe central da MFN, pois expressa nossa visão de promover uma abordagem policêntrica para a mobilização de recursos – uma visão de um mundo em que todo tipo de recurso, tempo, habilidades, dinheiro, ideias e inovação fluem de todos os lugares para todos os lugares, para o cumprimento da Grande Comissão.

 O povo africano e a igreja africana são generosos de maneira sacrificial e alegre.

À medida que os participantes começaram a chegar de Angola, Etiópia, Maláui, Nigéria, Quênia, África do Sul, Gana, Uganda, Burkina Faso, Chade e de outros lugares, a atmosfera foi se tornando cada vez mais acolhedora e cheia de expectativa. E, enquanto iniciávamos nossas primeiras sessões, ouvindo histórias de igrejas e ministérios de todo o continente, uma verdade poderosa emergiu com impressionante clareza: o povo africano e a igreja africana são generosos de maneira sacrificial e alegre.

A África generosa sobre a qual não falamos.

À medida que fluíam as conversas entre amigos novos e antigos durante um café ou almoço, começamos a testemunhar o que Deus já está realizando na África. E as histórias que surgiram eram de tirar o fôlego, tanto por sua abrangência quanto por sua beleza, sustentadas por pesquisas que desafiam muitos dos estereótipos sobre o cristianismo africano e a mobilização de recursos.

A dra. Rosemary Mbogo, do Quênia, compartilhou estatísticas importantes do World Giving Index (2025), da Charities Aid Foundation, que aponta a Nigéria como o país mais generoso do mundo, seguida de perto por Quênia e Gana.

A Yetu Initiative (2018) constatou que 93% dos quenianos entrevistados relataram doar de alguma forma, sendo que 92% praticavam doações informais a indivíduos e 64% contribuíam com organizações.

Mais notável ainda, segundo ela, é que a Yetu Initiative (2018) constatou que 93% dos quenianos entrevistados relataram doar de alguma forma, sendo que 92% praticavam doações informais a indivíduos e 64% contribuíam com organizações, o que indica níveis muito elevados de generosidade das famílias tanto por meio de canais informais quanto formais.

Outro estudo recente na África Oriental revelou que entre 22% e 31% da renda mensal é destinada a doações para igrejas e iniciativas comunitárias, sendo que 80% a 90% dessas doações fluem por meio de canais relacionais e informais, e não por estruturas institucionais.

As estatísticas e os relatos traçam um retrato vibrante do cristianismo africano que raramente aparece nas conversas globais sobre financiamento de missões. Um retrato de amigos, famílias e comunidades locais reunindo recursos para emergências médicas e funerais, de fiéis apoiando famílias que fogem de conflitos e perseguição, de líderes de igrejas acolhendo órfãos em suas casas e garantindo sua educação, de comunidades construindo poços e maternidades, de igrejas locais criando oportunidades econômicas para os marginalizados – e muito mais.

Esses não são atos isolados de bondade e compaixão. São padrões sustentados de generosidade, entrelaçados no próprio tecido da vida da igreja na África, fundamentados na convicção de que o povo de Deus é chamado a refletir o seu coração de amor, justiça, misericórdia e provisão.

Quando Deus chama um povo, ele o chama para ser provedor para suas famílias, suas igrejas e para o futuro da missão de Deus.

Foi nesse contexto de histórias da generosidade africana vividas e documentadas que o professor Nimi Wariboko, da Universidade de Boston, fez o discurso de abertura da plenária. O que ele ofereceu foi uma robusta reformulação teológica sobre riqueza, economia e missão, algo que muitos de nós jamais havíamos ouvido, pelo menos não articulado de forma tão clara ou tão poderosa.

“Quero começar dizendo algo com clareza”, disse Wariboko. “Uma economia existe para prover para o futuro.”

Essa frase simples teve um impacto enorme, porque a maioria das conversas sobre generosidade no ministério reforça o papel de Deus como Dono e Provedor, e o nosso papel como mordomos. Raramente elas se concentram na criação de riqueza ou no futuro da missão.

Em toda a África, bem como em outros lugares, vivemos no “agora urgente”, em que famílias têm dificuldade para fechar as contas e ministérios estão constantemente lutando para financiar o próximo projeto ou pagar os salários da equipe. Wariboko, contudo, reforçou que as Escrituras nos convidam a erguer os olhos do presente para o horizonte – um horizonte que se estende além de meses e anos, alcançando gerações.

Ele nos levou de volta ao princípio de tudo, à narrativa da Criação, lembrando-nos que Deus é o Criador e que, como seres humanos feitos à sua imagem, somos convidados a participar de sua obra criadora: cultivando a terra, trabalhando para gerar riqueza, administrando recursos, apoiando a missão e moldando sistemas que sustentem a vida e possibilitem o florescimento ao longo do tempo.

Não se trata de capitalismo ou socialismo, insistiu Wariboko, mas teologia, enraizada em quem Deus é e no que ele chama o seu povo a ser.

Recorrendo cuidadosamente a Deuteronômio 28, ele compartilhou percepções valiosas que muitos de nós talvez nunca tenhamos assimilado plenamente, mesmo tendo lido o texto diversas vezes: Deus abençoa os bens – terra, rebanhos, ferramentas, habilidades, entre outros. Esses bens produzem fruto, o fruto é administrado de modo a gerar excedente, e o excedente cria a capacidade para emprestar, compartilhar, construir, enviar e investir nos próximos passos. Isso não é a prosperidade instantânea que alguns pregadores prometem, dissociada da disciplina e desconectada da realidade. Trata-se de uma fidelidade lenta, paciente e geracional, que entende a riqueza não como um meio para o conforto pessoal, mas como uma ferramenta para ampliar a capacidade missionária, como semente para colheitas futuras e como um ato de mordomia que se estende ao longo do tempo.

”A Bíblia não imagina um povo que vive permanentemente de milagre em milagre. O maná nunca foi concebido para ser a base de um sistema econômico.”

”A Bíblia não imagina um povo que vive permanentemente de milagre em milagre”, disse Wariboko com sua franqueza característica. “O maná nunca foi concebido para ser a base de um sistema econômico.”

Essa frase continuou ecoando na sala muito depois de Wariboko retornar ao seu assento, porque descreveu algo que muitos líderes ministeriais e captadores de recursos vivenciam, mas têm dificuldade de articular: a tensão entre confiar em Deus para a provisão diária e o mandato bíblico de planejar, economizar, construir e criar estruturas que perdurem além da vida de um único líder ou uma única geração.

A missão atravessa o tempo, não apenas fronteiras geográficas.

Uma das contribuições mais transformadoras de Wariboko para a Africa Roundtable foi sua insistência de que a missão deve ser compreendida não apenas de forma espacial, mas também temporal. Em outras palavras, a missão envolve levar as boas-novas de Jesus não apenas de um lugar a outro, mas de uma geração para a seguinte.

“Missão não é apenas ir da África para as nações”, disse ele. “Mas também desta geração para a próxima.”

Citando Provérbios 13.22 – “O homem bom deixa herança para os filhos de seus filhos” – Wariboko desafiou os participantes a refletir sobre a herança não apenas como riqueza pessoal transmitida no contexto familiar, mas como capacidade missional confiada à igreja: recursos financeiros e relacionamentos que possibilitam o avanço do evangelho depois que os líderes de hoje tiverem completado a sua carreira.

Ele falou com franqueza e sem julgamento sobre como muitos ministérios africanos – tanto no Sul Global quanto no Norte Global – surgem e desaparecem junto com seus fundadores, entrando em colapso ou se fragmentando quando os líderes fundadores se afastam ou falecem. Isso não acontece porque Deus tenha sido infiel, mas porque faltou planejamento, a sucessão foi negligenciada, ativos não foram desenvolvidos e a dependência de sustento externo ou de uma liderança carismática jamais foi enfrentada. Esse padrão, sugeriu ele, não é fidelidade, mas fragilidade, e desonra a missão que Deus nos confiou e as gerações que virão depois de nós.

“Prover para o futuro não é falta de fé”, disse Wariboko. “É a fé estendida ao longo do tempo. É obediência a um Deus que pensa em séculos, não em trimestres.”

Estamos construindo algo que sobreviva a nós, ou simplesmente mantendo as luzes acesas até nos aposentarmos?

A sala ficou em silêncio enquanto líderes de todo o continente refletiam sobre essas perguntas: Que legado estamos deixando? Que estruturas, que ativos, que sistemas, que paixão por ver o evangelho proclamado às futuras gerações estamos transmitindo às próximas gerações?

E uma pergunta ainda mais incômoda: Estamos construindo algo que sobreviva a nós, ou simplesmente mantendo as luzes acesas até nos aposentarmos?

“O que você tem em casa?”

Essa visão teológica de longo prazo foi lindamente fundamentada na realidade cotidiana por meio da contribuição do reverendo dr. Barnabe Anzuruni, da Tearfund África, que nos relembrou uma das histórias mais tocantes das Escrituras: a da viúva em 2Reis 4, que procurou o profeta Eliseu, pois enfrentava a possibilidade de perder seus filhos para os credores, e, aparentemente, nada tinha a oferecer.

A resposta de Eliseu ao problema da viúva não foi a que esperávamos. Ele não prometeu um milagre desvinculado da participação dela. Não buscou recursos de outros lugares. Em vez disso, fez-lhe uma pergunta simples: “O que você tem em casa?”

Não “Do que você necessita?” Nem “Quem irá resgatá-la?” Ou “De quanto você precisa?” Mas, sim: “O que Deus já colocou em suas mãos?”

A resposta da viúva foi sincera e comovente: “Tua serva não tem nada além de uma vasilha de azeite”. E, no entanto, à medida que a história se desenrola, aquela pequena vasilha torna-se o caminho para a sua libertação: por meio da obediência a Deus e da participação da comunidade – que providenciou as vasilhas – suas dívidas são pagas e seu futuro é assegurado.

Barnabe Anzuruni explicou como essa pergunta – “O que você tem em casa?” – é central ao trabalho de mobilização de igrejas e comunidades pela Tearfund na África. Essa pergunta tem levado a transformações impressionantes em centenas de comunidades, porque desloca o foco da conversa da escassez para a mordomia, da dependência para a dignidade, e da passividade para a participação.

“Pobreza não se resume à falta de recursos”, disse Anzuruni com convicção serena. “Muitas vezes, é uma questão de perda de confiança e da capacidade de imaginar novas possibilidades. Trata-se de comunidades que passam a acreditar na mentira de que não têm nada a contribuir, de que a transformação precisa sempre vir de fora; a ideia prevalente de que são alvos da missão, e não agentes dela”.

Quando igrejas e comunidades começam perguntando o que Deus já lhes deu – por exemplo, habilidades, relacionamentos, tempo, terra, confiança, criatividade, dons espirituais – as pessoas se sentem capacitadas.

As pessoas deixam de esperar por ajuda externa e passam a participar ativamente da transformação. Pequenas contribuições tornam‑se investimentos compartilhados. As comunidades começam a ver a si mesmas não como receptoras de ajuda, mas como administradoras da provisão de Deus, como parceiras na missão, como portadoras de soluções que surgem de dentro, em vez de serem impostas de fora.

Quando a fé aprende a planejar: ativos missionais e mordomia de longo prazo

Essa mesma pergunta – “O que já temos e como poderíamos administrá-lo com mais fidelidade?” – assumiu uma forma mais institucional na apresentação do reverendo doutor Moses Bushendich, da CMS África, que falou com notável honestidade sobre uma tensão que muitos líderes cristãos vivenciam, mas raramente nomeiam publicamente: o receio de que o desenvolvimento de ativos sustentáveis ou a diversificação das fontes de sustento possam, de alguma forma, contradizer a confiança na provisão de Deus.

“Não acredito que fé e mordomia sejam inimigas”, afirmou Bushendich com firmeza. “Acredito que elas caminham juntas. Creio que a confiança absoluta em Deus e o planejamento cuidadoso não são opostos, mas parceiros na missão fiel”.

Ele descreveu como a CMS África tem buscado sustentabilidade por meio da diversificação de suas fontes de sustento: promovendo a doação de base e a participação das igrejas locais, criando ativos – incluindo propriedades geradoras de renda – e estabelecendo parcerias estratégicas com outros ministérios africanos, fundamentadas em objetivos missionais compartilhados, e não em narrativas contínuas de dependência ou resgate.

“Os ativos permitem que os líderes tenham a liberdade de discernir a direção de Deus, em vez de simplesmente reagir a quem oferece recursos financeiros. Eles permitem recusar parcerias que não se alinham com o chamado e de aceitar trabalhos que talvez não atraiam doadores, mas que são claramente o que Deus quer que seja feito”.

“Os ativos dão fôlego aos ministérios”, explicou Bushendich. “Permitem que os líderes tenham a liberdade de discernir a direção de Deus, em vez de simplesmente reagir a quem oferece recursos financeiros. Criam estabilidade que permite recusar parcerias que não se alinham com o chamado e de aceitar trabalhos que talvez não atraiam doadores, mas que são claramente o que Deus quer que seja feito”.

Era a teologia de Wariboko sobre a provisão para o futuro ganhando forma concreta: políticas e estruturas de governança, estratégias de investimento do reino. Essa perspectiva ressoa profundamente entre líderes que se sentem cansados de viver no limite, exaustos de escrever propostas intermináveis e frustrados com as dinâmicas de poder presentes nas relações tradicionais de sustento entre líderes do Sul Global e financiadores do Norte Global.

Fazedores de tendas, empreendedores e a missão no local de trabalho

A Roundtable também explorou abordagens inovadoras de financiamento missionário que honram tanto os padrões bíblicos quanto a criatividade africana. Victor Agbonkpolor, médico da Nigéria e catalisador da Rede Temática Lausanne Fazedores de Tendas, apresentou o modelo do apóstolo Paulo de integração entre vocação e missão, no qual o trabalho não apenas gera renda, mas também oferece um meio para compartilhar sobre Jesus e desenvolver habilidades para a transformação de comunidades.

Destacando a estratégia missionária de Paulo em Corinto e em outros lugares, Agbonkpolor mostrou que trabalho e missão estão integrados, que a independência econômica gera credibilidade, que os locais de trabalho podem se tornar campos missionários e que a renda pode apoiar o ministério de outros.

O trabalhador é o missionário, enfatizou Agbonkpolor, não alguém que finge trabalhar, mas alguém que busca excelência e integridade em sua profissão, enquanto cruza intencionalmente fronteiras culturais por causa do evangelho.

Septi Bukula, líder empresarial da África do Sul, expandiu essa ideia ao apresentar o empreendedorismo em si como uma forma de generosidade, um engajamento para toda a vida, no qual empreendedores cristãos sustentam a missão de Deus por meio de inovação, colaboração e doações sustentáveis. A partir de sua própria trajetória em Mbizana, uma área rural do Cabo Oriental, na África do Sul, onde aprendeu desde cedo que “para ser rico, é preciso abrir um negócio” e que a doação à comunidade tem precedência sobre as vendas, Bukula demonstrou como o empreendedorismo se torna um veículo de adoração vertical e generosidade horizontal: cuidando das equipes, apoiando ministérios locais e muito mais.

Mulheres generosas, prestação de contas e testemunho do evangelho

À medida que as conversas continuavam, os participantes da Africa Roundtable retornavam repetidamente às questões de integridade, prestação de contas e aos modelos de generosidade presentes nas igrejas e comunidades locais.

A reverenda Ann Wang’ombe, do Quênia, trouxe uma contribuição ao mesmo tempo delicada e incisiva, lembrando‑nos do que as Escrituras e a história da igreja demonstram claramente: as mulheres desempenham um papel fundamental no sustento da obra de Deus por meio da doação, do serviço e do voluntariado.

Desde as mulheres que apoiaram Jesus e seus discípulos “com seus bens”, conforme o registro de Lucas 8, até Lídia, que abriu sua casa e colocou seus recursos e talentos empresariais a serviço da igreja primitiva em Atos 16, passando pela mulher sunamita, que construiu um quarto para Eliseu em 2 Reis 4, até incontáveis mulheres africanas que oferecem cuidado, hospitalidade, organizam redes de oração e círculos de doação, e muitas vezes são invisíveis, pouco reconhecidas, sem plataformas ou títulos.

 “Se você remover a generosidade das mulheres da igreja”, disse Wang’ombe com convicção inequívoca, “grande parte do nosso ministério simplesmente deixará de funcionar”.

As histórias que ela compartilhou da Deliverance Church Kahawa Sukari ilustraram isso de forma belíssima: a saudosa Sarah, que serviu fielmente na Escola Bíblica de Férias desde 2005, ajudando a preparar centenas de refeições todos os dias; as “Goldeners” (senhoras aposentadas) de sua igreja, que levam cestas de frutas aos doentes e enlutados; os cafés da manhã de ação de graças das mulheres, que arrecadam recursos para doar presentes de Natal a famílias necessitadas e para quitar contas hospitalares de uma mãe que estava impedida de deixar o hospital por não conseguir quitar as despesas; e mulheres que mobilizaram recursos para a compra de mobiliário da igreja e para a construção de instalações essenciais.

Se as mulheres – que estatisticamente doam de forma mais consistente, mais sacrificial e mais relacional do que os homens na maioria dos contextos – são marginalizadas em nossas conversas sobre generosidade, então a nossa teologia é injusta e insuficiente.

Esse padrão de generosidade feminina, disse ela, repete‑se em diversas denominações: a União das Mães Anglicanas, a Liga Feminina Presbiteriana, a Associação Feminina Católica e outras redes de mulheres africanas que servem de maneira prática cozinhando, limpando e organizando eventos, e que mobilizam recursos para apoiar projetos da igreja e cuidar de crianças em situação de vulnerabilidade.

O que foi compartilhado pela reverenda Wang’ombe e por outras líderes, como a reverenda Regina Nuhu, da Nigéria, não é uma conversa paralela. Suas percepções são centrais para a construção de qualquer teologia prática da generosidade, pois nos obrigam a perguntar: De onde vêm as doações que celebramos? Quais contribuições reconhecemos? Que liderança com mordomia, capacitamos e apoiamos com recursos? E se as mulheres – que estatisticamente doam de forma mais consistente, mais sacrificial e mais relacional do que os homens na maioria dos contextos – são marginalizadas em nossas conversas sobre generosidade, então a nossa teologia é injusta e insuficiente.

Prestação de contas e supervisão

Entrelaçado em todas as conversas sobre a doação nas igrejas locais e para a obra missionária de Deus estava o tema da responsabilidade e prestação de contas, resumido com elegante simplicidade pelo reverendo Daniel Vermeulen, da África do Sul: “A generosidade abre portas para o evangelho. Mas o mau uso da generosidade as fecha com a mesma rapidez”.

A sra. Pauline Kamau, do Africa Council for Accreditation and Accountability (AfCAA), enfocou os danos causados às igrejas e ministérios africanos por governança frágil, estruturas centradas nos fundadores com supervisão insuficiente, fronteiras pouco claras entre recursos pessoais e ministeriais e por práticas de captação de recursos coercitivas ou manipuladoras, que exploram a fé e a culpa das pessoas. Ela e outros participantes da Africa Roundtable compartilharam histórias dolorosas de confiança quebrada, de ministérios que desmoronaram por causa de escândalos financeiros e de comunidades que foram exploradas por seus líderes em nome de Deus.

O consenso na sala foi claro e inequívoco: a prestação de contas não é uma imposição ocidental ou um fardo burocrático, mas discipulado bíblico, obediência prática e necessidade missional. Quando a confiança é quebrada, a generosidade se extingue. Quando a integridade é praticada de forma consistente, a generosidade cresce, aprofunda‑se e se multiplica por grupos e gerações.

Para concluir as discussões sobre como promover generosidade nas igrejas africanas, o reverendo doutor Peterson Wang’ombe apresentou lições práticas aprendidas ao longo de anos de ministério pastoral:

  • Ore, porque a obra de Deus é espiritual
  • Ensine e pregue regularmente sobre generosidade
  • Adote uma atitude positiva ao falar sobre dinheiro e finanças na igreja
  • Envolva os membros da igreja e comunique‑se de forma generosa
  • Desperte confiança por meio da integridade e da transparência
  • Demonstre e incentive a generosidade
  • Valorize os doadores generosos de todas as idades
  • Capacite as pessoas, cultive o capital social e permaneça relevante ao contexto

Ele também apontou os desafios de forma honesta: cansaço dos doadores por serem solicitados a contribuir com muita frequência, síndrome de dependência, manipulação, alto custo do ministério remunerado, falta de integridade e individualismo crescente, todos os quais exigem respostas intencionais por parte da liderança.

A mensagem da Africa Roundtable para a igreja africana e para a igreja global.

Uma das reviravoltas decisivas que ocorreu durante a Africa Roundtable foi esta: os líderes africanos presentes sentiram que não eram apenas aprendizes, mas também mestres; não eram apenas um estudo de caso, mas uma voz confiante que oferecia sabedoria.

Essa mudança foi destacada de forma explícita por Yaw Perbi em sua palestra de encerramento sobre “Afrinovação” e “Afriparticipação”. Ele apresentou um desafio à narrativa dominante que ainda persiste, talvez de forma inconsciente, no discurso cristão global: a ideia de que a África é um campo missionário, e não uma força missionária; de que a África tem necessidades, enquanto o Norte Global detém as soluções, o capital e o pensamento estratégico.

Perbi destacou, em vez disso, a criatividade, resiliência e inovação extraordinárias que já florescem em todo o continente: modelos econômicos de base comunitária fundamentados na confiança, ministérios que integram fé, empreendedorismo e transformação social, líderes que mobilizam pessoas, habilidades e capital de maneiras que não dependem de permissão ou validação externas.

“O que muitas vezes falta”, sugeriu Perbi, “não é generosidade ou capacidade, mas validação teológica e reconhecimento global daquilo que já está acontecendo na África”.

A pesquisa da Dra. Rosemary Mbogo reforçou esse ponto ao demonstrar que a educação teológica tem um papel crítico a desempenhar. Como ela observou, muitas universidades e faculdades teológicas africanas hoje carecem de currículos formais que abordem a mordomia e, quando esses conteúdos existem, muitas vezes são tratados de forma administrativa, e não teológica.

No entanto, evidências empíricas mostram que quem recebe formação em administração dos recursos de Deus tende a demonstrar maior senso de responsabilidade e mais iniciativa empreendedora no ministério. Permanece, porém, uma distância entre a generosidade vivida e a formação teológica formal, o que reforça a necessidade de rever os currículos para que reflitam a -realidade da prática de doações na África.

Gerações generosas: o presente da África para o mundo

Uma das respostas mais convincentes à ênfase da Africa Roundtable na transferência intergeracional de riqueza e na missão ao longo do tempo veio de Cherise Vermeulen, da África do Sul, que nos lembrou que, se levamos a sério a ideia de deixar uma herança para os filhos de nossos filhos, precisamos começar a ensinar nossos filhos a serem generosos agora.

Cherise e seu marido, Danie (que falou sobre a generosidade como testemunho do evangelho), fizeram uma pergunta provocativa: Por que esperamos até a idade adulta para incutir os valores transformadores da generosidade?

Na Roundtable, Cherise compartilhou sua bela e ousada visão: um mundo de gerações generosas, provenientes de diferentes contextos. Um movimento global de crianças, adolescentes e jovens adultos que são modelos do amor de Cristo por meio do impacto transformador da generosidade bíblica.

Essa convicção os levou a fundar o Generous Generations, um movimento criado em março de 2023, em São Paulo, Brasil, quando Cherise se uniu ao Global Children’s Forum para explorar os recursos sobre a “Generosidade das Crianças”.

A missão não atravessa apenas espaços geográficos; atravessa também o tempo, e o investimento mais estratégico que podemos fazer é nos corações generosos da próxima geração.

O que começou com 14 voluntários que se reuniram durante uma semana para trocar ideias cresceu e tornou-se uma rede mundial de voluntários e tradutores que estão criando o Generosity Discipleship Experiences (GDEs), atividades interativas e de última geração, desenvolvidas especialmente para crianças, adolescentes, jovens e adultos.

O trabalho e os recursos da Generous Generations evidenciam uma das percepções mais valiosas da Africa Roundtable: a missão não atravessa apenas espaços geográficos; atravessa também o tempo, e o investimento mais estratégico que podemos fazer é nos corações generosos da próxima geração.

Para onde vamos a partir daqui?

Ao final da Africa Roundtable, não houve manifesto nem declaração, tampouco distribuímos um plano de ação em dez pontos. O que palestrantes e participantes desejaram, em comum, foi isto: dar continuidade a essas conversas sobre generosidade e captação de recursos e colocar em prática aprendizados e percepções compartilhados.

A equipe da MFN publicará, nos próximos meses, os artigos apresentados na Africa Roundtable; vídeos curtos dos principais palestrantes serão disponibilizados em breve no canal da MFN no YouTube, para que as histórias e os aprendizados possam ultrapassar as fronteiras do Quênia, alcançando líderes ministeriais, educadores teológicos, líderes de denominações e obreiros missionários em toda a África e ao redor do mundo.

Além disso, estamos lançando um hub de aprendizagem da MFN África como um espaço para reflexão teológica contínua, aprendizado e criação de recursos e treinamentos autênticos sobre generosidade bíblica, mordomia e financiamento sustentável da missão.

Se você tiver interesse em integrar esta comunidade de aprendizagem, interagir com os recursos disponibilizados ou participar de futuras conversas da MFN, entre em contato conosco pelo e‑mail: hello@mfn.global.

Cremos que a questão central para a igreja global já não é apenas: “Como financiaremos a missão de Deus?”

As perguntas mais profundas, mais desafiadoras e mais honestas são:

  • Que tipo de mordomos de Deus estamos nos tornando hoje e para as futuras gerações?
  • O que estamos deixando nas mãos daqueles que virão depois de nós?
  • Como a extraordinária generosidade que já flui pela igreja africana pode nos ensinar sobre o caráter de Deus e a natureza da sua missão no mundo?

De “O que você tem em casa?” para “O que você deixará?” – essa é a jornada à qual líderes cristãos africanos convidam a igreja global. Não para segui-los à distância, mas para reconhecê-los como mestres que apontam o caminho: generosidade fiel, sacrificial e alegre, que flui de corações cativados pela graça de Deus e de comunidades que participam ativamente de sua missão.