Global Analysis

Desbloqueando a partilha de recursos teológicos entre o Norte e o Sul

a necessidade de uma educação teológica missional que valorize toda a igreja

Kirsteen Kim out 2017

*Este artigo foi traduzido em português europeu.

Um dos dilemas cruciais enfrentados por quem está envolvido com educação teológica é este: a maioria dos estudantes está no hemisfério Sul, e a maioria dos recursos no hemisfério Norte. Não faz muito tempo, um colega meu, que vive em África, me fez ganhar uma nova perspectiva da sua situação. Ele me enviou um email pedindo desculpa por não ter tempo de contribuir com textos para uma série de livros a editar: “Hoje de manhã fui dar aulas a uma turma de Soteriologia e tinha cento e quatro alunos na sala! Amanhã terei outros cinquenta na aula de Estudos Pentecostais!”.

Desequilíbrio entre Norte e Sul

O grande número de alunos na Coreia do Sul e na Índia, nas décadas de 1980 e 1990, é algo que me alegra profundamente, o que contrasta com a dificuldade de recrutar estudantes de teologia na Europa hoje. No Norte, onde eu vivo, existem mais oportunidades de investigação e produção de manuais, porém, há uma pobreza muito grande no que diz respeito a comunidade teológica. Por sua vez, no Sul existe uma escassez de recursos educativos e de professores qualificados.

No Norte, onde eu vivo, existem mais oportunidades de investigação e produção de manuais, porém, há uma pobreza muito grande no que diz respeito a comunidade teológica

Quando o apóstolo Paulo persuadiu os crentes em Corinto a participarem numa oferta para os crentes em Jerusalém, que enfrentavam uma fome, ele justificou o pedido como sendo uma questão de equilíbrio justo entre a fartura deles e a necessidade dos outros, para que a fartura de uns suprisse a necessidade dos outros, para que houvesse um equilíbrio justo. Hoje existe um desequilíbrio entre Sul e Norte na educação teológica que, de semelhante modo, precisa de ser combatido, para que no corpo de Cristo e no reino de Deus ninguém tenha a mais ou a menos (2 Cor. 8:13-15).

As palavras de Paulo implicam que o estado atual das coisas não é permanente. Podemos até esperar um cenário em que as necessidades se revertem. Na verdade, já estamos a assistir a mudanças:

  • Um pouco por todo o Norte, a grande maioria dos líderes de igrejas têm educação teológica, por vezes até ao doutoramento, mas isso não impede o declínio de estudantes de teologia, incluindo em escolas evangélicas.
  • No Sul, muitas igrejas são lideradas por pessoas sem o benefício de uma educação teológica, e também sem possibilidade de aceder a ela. No entanto, embora não existam dados concretos sobre a educação teológica no Sul, as associações teológicas regionais relatam um crescimento a grande velocidade. Mais ainda: alguns professores de instituições no Sul agora têm qualificações superiores, o que lhes permite oferecer programas de doutoramento.

Apesar desta mudança de cenário, a maioria absoluta dos professores, fundos para bolsas, bibliotecas teológicas e publicações ainda estão no Norte. Além disso, o declínio da educação teológica no Norte, em conjunto com os efeitos decorrentes da crise financeira de 2008, restringiu o financiamento — que já era limitado — disponível para a educação teológica no Sul.

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Estimulando a partilha através de uma educação teológica missional

Apesar das restrições financeiras, muita coisa pode ser feita para combater o desequilíbrio atual na educação teológica entre o Norte e o Sul. Quero apresentar alguns exemplos e sugestões práticos de partilha de recursos. Porém, para que isto seja uma realidade, precisamos de uma educação teológica que estimule este tipo de partilha.

Apesar das restrições financeiras, muita coisa pode ser feita para combater o desequilíbrio atual na educação teológica entre o Norte e o Sul.

O Compromisso da Cidade do Cabo apela a uma educação teológica bíblica e missional (CCC II F 4). Afirma também que “a educação teológica é intrinsecamente missional”, desafiando aqueles que oferecem educação teológica a “garantir que ela seja intencionalmente missional” (CCC II F 4A). Tendo presente a comissão de Cristo para fazer discípulos em todas as nações, uma educação teológica missional servirá todo o cristianismo global e não apenas alguns privilegiados. Tendo presente o amor de Deus por todas as pessoas, a educação teológica será praticada de uma forma que respeite os contextos locais e os dons dos outros.

Um dos motivos para a partilha inadequada de recursos é o fato de a educação teológica — tanto no Norte como no Sul — ser dominada por modelos desenvolvidos para servir a igreja institucional de uma comunidade bastante homogênea num local específico.

Precisamos de uma educação teológica missional que caminhe lado a lado com o desenvolvimento de uma igreja missional. A transição para uma atitude missional não passa apenas por acrescentar cursos opcionais sobre “missiologia” ou “cristianismo global”. Ela requer uma mudança de paradigma na forma de ensinar todo o currículo teológico. E esta mudança já está acontecendo:

  • Na área dos Estudos Bíblicos, já se reconhece a diversidade cultural e regional da igreja primitiva.
  • Na Teologia Sistemática, já se incluem os sistemas de pensamento na Ásia, África e de povos indígenas.
  • A história da igreja está cada vez mais integrada na história de missões, reconhecendo a natureza policêntrica dos movimentos cristãos.
  • A teologia prática está se focando não apenas em questões locais, mas também em questões globais e em como estão interligadas.

Quando aprendemos, através da nossa educação teológica, a valorizar toda a igreja — diversa, multicultural, global e interdependente — percebemos a importância da partilha de recursos. O Movimento de Lausanne pode ser um catalisador para acelerar a mudança necessária nas agências de acreditação, mas também nas instituições de ensino teológico.

A Educação Teológica continua sujeita ao legado das relações coloniais de dependência, bem como aos pressupostos capitalistas

Outro motivo para a falta de partilha é o fato de a educação teológica nem sempre considerar a natureza policêntrica do cristianismo no mundo. Em vez disso, ela continua sujeita ao legado das relações coloniais de dependência, bem como aos pressupostos capitalistas de que o valor é representado pela riqueza material.

Num mundo pós-colonial, a palavra parceria[1] se tornou fundamental para descrever o respeito mútuo e reconhecer a necessidade de ambos os lados. A parceria na educação teológica reconhece que a aprendizagem é um processo bilateral e exige que, conforme afirmou o teólogo John Mbiti, do Quênia, “nos conheçamos uns aos outros teologicamente”.[2]

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Partilha de recursos teológicos: exemplos

Existem ótimos exemplos de partilha tanto de recursos humanos como de recursos educativos. No entanto, somente nos é possível mencionar uma seleção de ambos.

icon-exchangeProgramas de intercâmbio teológico

No âmbito humano, uma educação teológica missional requer um encontro com pessoas de outros contextos. A Parceria Langham facilita a partilha de recursos humanos — do Norte para o Sul e do Sul para o Sul — através de programas de intercâmbio teológico. A interação com cristãos de outras partes do mundo é formativa acerca do cristianismo mundial e edifica toda a igreja. Num clima de concorrência de mercado entre escolas, estas parcerias ajudam a prevenir o corte de preparação teológica no Sul por parte das instituições do Norte.

icon-capacityTreinamento de capacidadescity building

Para fomentar a igualdade na educação teológica, as agências cristãs têm de combater o domínio do Norte no ensino superior à escala global, desencorajar a fuga de cérebros do Sul para o Norte e encontrar formas de treinar capacidades no Sul. O Oxford Centre for Mission Studies (Centro de estudos missionários de Oxford) tem um longo historial de facilitar a vinda de alunos do Sul para realizarem doutoramentos no Norte, minimizando o custo e o tempo passado longe das suas famílias. O Center for Missiological Research (Centro de pesquisa missiológica) do Seminário Teológico Fuller e o projeto Mission Theology in the Anglican Communion (Teologia de missões na comunidade anglicana) facilitam as sabáticas para fins de investigação de professores do Sul.

icon-sharedInvestigação partilhada

A partilha de recursos também pode ocorrer através da investigação partilhada. Talvez o exemplo mais significativo nos estudos de missões tenha sido o projeto Edimburgo 2010, que preparou o centenário da Conferência Missionária Mundial de 1910. O projeto, fundado por igrejas locais de todo o mundo e agências missionárias de todas as denominações, exigiu o envolvimento de cristãos de todo o mundo. Este objetivo foi conseguido ao juntar, no âmbito de cada um dos nove temas de estudo, grupos e institutos de diversas regiões.

A título de exemplo, o relatório sobre “Espiritualidade em missões e discipulado autêntico” teve a participação de investigadores da CMS-UK, do Oxford Centre for Mission Studies, do Instituto Akrofi-Christaller do Gana, do Instituto de Missiologia da Universidade Católica Boliviana de Cochabamba e da Comissão de Missões Mundiais e Evangelismo do Conselho Mundial de Igrejas. O resultado daí emergente foi um diálogo entre todas estas instituições.

icon-mediatedAprendizagem mediada

As novas plataformas de comunicação online permitem a aprendizagem mediada e muitos modos distintos de dar aulas de educação teológica. O webinar, por exemplo, pode servir uma audiência verdadeiramente global e gerar interação intercultural com impacto. As instituições do Norte podem partilhar este software, bem como o seu conhecimento, para que os webinars e outras conversas globais tenham início a partir, e dentro, do Sul. O fornecimento de educação online é, de momento, dominado pelas instituições e agências do Norte, muitas das quais recrutam no Sul. No entanto, o estabelecimento de parcerias poderia proporcionar a oportunidade aos alunos, incluindo os do Norte, de estudarem em cursos com origem no Sul.

icon-learningRecursos educativos

A necessidade mais aguda que existe no Sul é de recursos educativos. A maioria das obras acadêmicas e manuais é publicada no Norte, mas o preço está fora do alcance de alunos e, até, de bibliotecas. O acesso a recursos eletrônicos poderá ser também limitado, dado ser controlado pelas mesmas editoras.

A Parceria Langham e a SPCK há muito que vêm liderando a iniciativa de produzir literatura para educação teológica a preços acessíveis produzida por pesquisadores do Sul e do Norte. Porém, o crescimento e a propagação global da internet tem aberto novas possibilidades para desenvolver recursos de aprendizagem comuns. Existem vários projetos para disponibilizar recursos teológicos a alunos no Sul e em várias regiões no mundo todo. A mais abrangente, com 650.000 títulos, é a GlobeTheoLib. Iniciada pelo site Globethics.net e pelo Conselho Mundial de Igrejas para criar uma plataforma comum de acesso a recursos digitais e bibliotecas teológicas existentes, de acesso livre em várias línguas.

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A uma escala mais reduzida, a Regnum Books International publicou as obras do projeto Edimburgo 2010 e, depois, desenvolveu-as e lançou a Regnum Edinburgh Centenary Series (Série centenário de Edimburgo da Regnum), uma coleção de 35 volumes sobre missões e evangelismo no cristianismo em todo o mundo. Graças ao financiamento de igrejas e agências missionárias, e à generosidade da Regnum, a série está disponível para download gratuito no site da Regnum. Foram ainda levantados mais fundos para tornar cada volume mais legível e acessível para pesquisa online. Este material não só permite a partilha da teologia e prática de missões à escala global, mas é também uma base de dados do cristianismo mundial para quem quiser aprofundar a sua pesquisa.

Mesmo as fontes e arquivos primários necessários para investigar o cristianismo no Sul poderão estar no Norte. A biblioteca da Yale Divinity School (Faculdade de teologia de Yale), entre outras, está a informatizar os arquivos relacionados com missões, o que facilitará o seu acesso a partir do Sul. A obra Dictionary of African Christian Biography (Dicionário da biografia do cristianismo africano), a ser elaborada por pesquisadores africanos e com base na Universidade de Boston, pretende criar uma base de dados eletrônica para registar as vidas dos principais responsáveis por lançar os alicerces, formar o caráter e fomentar o crescimento de comunidades cristãs em toda a África. Existe ainda uma obra irmã, o Biographical Dictionary of Chinese Christianity (Dicionário biográfico do cristianismo chinês).

Os projetos da Regnum e de Boston, em particular, não apenas partilham recursos do Norte com o Sul, como também disponibilizam recursos do Sul para todo o mundo, incluindo o Norte. Este é outro processo necessário na correção do desequilíbrio na educação teológica. Algumas publicações acadêmicas do Norte, tais como as principais revistas de estudos missiológicos, encorajam os artigos de pesquisadores do Sul, cujo trabalho poderá, de outra forma, passar despercebido. Já existem, também, várias séries de obras que procuram representar o cristianismo em todo o mundo. No entanto, é necessário dizer que muitos teólogos do Norte ainda não reconhecem a necessidade que têm de ler as contribuições do Sul. São eles que ficam mais pobres, e convencê-los disso é uma dimensão importante no desenvolvimento de uma educação teológica missional.

Conclusão

As tecnologias para facilitar a partilha global de recursos teológicos já existem. Existe um caminho, mas ainda falta a vontade. A partilha de recursos entre Norte e Sul não é outro meio de os primeiros ajudarem os segundos a “se desenvolverem”. É, sim, uma atividade recíproca com benefícios mútuos. Os exemplos acima demonstram que a educação teológica missional que valoriza toda a igreja é a chave para desbloquear a partilha de recursos teológicos entre Norte e Sul.

Further resources

Webinar State of the Industry da Association of Theological Schools (ATS), 2015 Disponível em http://www.ats.edu/resources/publications-and-presentations.

S. Bevans, T. Chai, N. Jennings, K. Jørgensen and D. Werner (ed.s), Reflecting on and Equipping for Christian Mission, Regnum Edinburgh Centenary Series 27 (Oxford: Regnum Books,2015).

Edinburgh 2010 Project, www.edinburgh2010.org.

GlobeTheoLib, Biblioteca Digital Global de Teologia e Ecumenismo, http://www.globethics.net/gtl.

Sebastian Kim and Kirsteen Kim, Christianity as a World Religion: An Introduction, 2nd ed. (London: Bloomsbury, 2016).

Movimento de Lausanne, “Effective Theological Education for World Evangelization”, Lausanne Occasional Paper N.º 57 (2004). Disponível em https://lausanne.org/category/content/lop.

Movimento de Lausanne, Consulta sobre Educação Teológica Global de 2012, Seminário Teológico Gordon-Conwell, EUA, 29 de maio de 2012 – 1 de junho de 2012. Vídeos disponíveis em https://lausanne.org/tag/theological-education.

Regnum Edinburgh Centenary Series. Disponível em http://www.ocms.ac.uk/regnum/list.php?cat=3.

D. Werner, D. Esterline, N. Kang and J. Raja (ed.s), Handbook of Theological Education in World Christianity: Theological Perspectives, Ecumenical Trends, Regional Surveys (Oxford: Regnum Books, 2010).

Endnotes

  1. Editor’s Note: See article by Phill Butler entitled, ‘Is Our Partnership for the Kingdom Effective? Evaluating Ministry Partnerships and Networks’ in January 2017 issue of Lausanne Global Analysis https://lausanne.org/content/lga/2017-01/is-our-collaboration-for-the-kingdom-effective.
  2. J. Mbiti, ‘Theological Impotence and the Universality of the Church’, in G. H. Anderson and T. F. Stransky (ed.s), Third World Theologies (New York: Paulist, 1976), 17.