Statement

 A Declaração de Larnaca

Contents
  • Loading Contents
Back

Preâmbulo

Nós nos reunimos como um grupo composto por trinta Judeus Messiânicos e Cristãos Palestinos, em Larnaca, Chipre, para a segunda consulta da Iniciativa Lausanne para Reconciliação em Israel/Palestina, de 25 a 28 de janeiro de 2016. Juntos, nós adoramos, oramos e estudamos as Escrituras. Nós construímos e estreitamos laços de amizades à medida que, juntos, comemos, bebemos e compartilhamos na comunhão do evangelho.

De maneira unânime, nós adotamos a subsequente declaração, bem como os compromissos advindos dela, e nós a recomendamos para estudo, oração e ação.

A declaração afirma nossa unidade como crentes em Jesus (seção 1), chama ao mútuo compromisso de levar e viver essa unidade onde há conflito e divisão (seção 2), reconhece as áreas desafiadoras e de desacordo teológico, e identifica onde ainda há trabalho a ser feito (seção 3), propõe ações práticas que expressem esperança para o futuro, especialmente entre a próxima geração de crentes em ambas as comunidades (seção 4), e conclama a grande família da fé à oração e ao apoio à esta iniciativa.

1. Nós afirmamos nossa unidade no corpo do Messias

1.1 Nossa unidade contém um propósito missional intrínseco, já que Jesus orou para que fôssemos um para que o mundo cresse na verdade sobre Ele.

²⁰ — A minha oração não é apenas por eles. Peço também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles,²¹ para que todos sejam um. Pai, como tu estás em mim e eu estou em ti, que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.²² Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, como nós somos um:²³ eu neles, e tu em mim. Que sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste e os amaste assim como amaste a mim.  (João 17:20-23)[1]

1.2 Nossa unidade é criada por Deus através do Espírito Santo, e a nós foi ordenado mantê-la em humildade, mansidão, paciência e amor.

¹ Como prisioneiro no Senhor, peço a vocês que vivam de maneira digna do chamado que receberam,² com toda humildade e mansidão; com paciência, suportando uns aos outros com amor.³ Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.⁴ Há um só corpo e um só Espírito, como também uma só esperança quando foram chamados;⁵ há um só Senhor, uma só fé, um só batismo,⁶ um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos. (Efésios 4:1-6)

1.3 Nossa unidade acolhe nossa diversidade como Judeus Messiânicos e Cristãos Palestinos dentro do mesmo corpo.

¹² Ora, como o corpo é somente um, mas tem muitos membros, todos os membros do corpo, embora sejam muitos, são um só corpo. Assim também é Cristo. ¹³ Pois também todos nós fomos batizados em um único Espírito para constituir um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres; a todos nós foi dado beber de um só Espírito. ¹⁴ Portanto, o corpo não é feito de um só membro, mas de muitos. (1 Co 12:12-14)

1.4 Nossa unidade foi conquistada pela cruz de Cristo, pela qual a inimizade entre nós foi abolida, ao passo que mantemos nossas distintas identidades.   

¹⁴ Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade,¹⁵ anulando no seu corpo a lei dos mandamentos expressa em ordenanças. O objetivo dele era criar em si mesmo, dos dois, um novo homem e, assim, estabelecer a paz¹⁶ e reconciliar com Deus os dois em um só corpo, por meio da cruz, pela qual ele destruiu a inimizade. (Efésios 2:14-16)

1.5 Nossa unidade é uma condição da benção de Deus em nossas comunidades

¹ Como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união!
² É como o óleo precioso derramado sobre a cabeça, que desce pela barba, a barba de Arão, até a gola das suas vestes.
³ É como o orvalho do Hermom quando desce sobre os montes de Sião. Sim, ali o Senhor concede a sua bênção, vida para sempre. (Salmo 133)

1.6 À luz destas e de outras passagens das Escrituras, nós afirmamos os seguintes parágrafos do Compromisso da Cidade do Cabo: [2]

Amar uns aos outros na família de Deus não é uma mera escolha, mas um mandamento inevitável. Esse amor é a primeira evidência de obediência ao evangelho, a expressão imprescindível de nossa submissão ao Senhorio de Cristo e um potente motor da missão mundial. [3]Lamentamos a divisibilidade e divisão de nossas igrejas e organizações. Temos o desejo profundo e urgente de que os cristãos cultivem um espírito de graça e que sejam obedientes ao mandamento de Paulo de “fazer todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”.

1.7 No contexto de nossas percepções e opiniões conflitantes, nós afirmamos, no entanto, nossa total concordância quanto a estas convicções:

  • Estamos unidos em nossa fé em Jesus de Nazaré como Messias, Salvador e Senhor, e nas Boas Novas do Reino de Deus pregadas por Ele e pelas quais Ele viveu, morreu e ressuscitou.
  • Estamos unidos no Corpo de Cristo como fruto de Seu trabalho reconciliador na cruz, e, em nossa diversidade, nós somos todos, igual e juntamente, membros da única família de Deus.
  • Pertencemos a uma única família;
    • nós nos comprometemos a amar e servir uns aos outros;
    • nós necessitamos uns dos outros;
    • nós compartilhamos dos sofrimentos dos outros como membros de um só corpo.;

2. Nós nos comprometemos a viver a unidade em meio ao conflito e à divisão, e clamamos nossas comunidades a que se unam a nós neste compromisso.

2.1 Em tempos de tensão e conflitos violentos, os relacionamentos sofrem, enquanto acusações e violência mútua se multiplicam. Em tempos assim, é ainda mais essencial que nós – que afirmamos nossa unidade no Messias – sustentemos padrões éticos de vida dignos do nosso chamado, em todas as nossas atitudes, palavras e ações.

2.2 Nós reconhecemos que defendemos posições teológicas bastante diferentes quanto à terra, e também perspectivas muito diferentes sobre as causas das realidades social, política e econômica que impactam a vida diária de todos que habitam a terra. Tais realidades incluem uma variedade de temas controversos (como: segurança; ocupação da Cisjordânia; Gaza; igualdade de cidadania em Israel; refugiados; atos de violência letal; busca por justiça e paz, etc.).

2.3 No entanto, nós insistimos que, independente de nossa teologia ou de nossas compreensões das realidades atuais, somos chamados a viver pelas ordenanças das Escrituras e pelo exemplo do Senhor Jesus Cristo, mesmo quando legitimamente nós nos questionamos nestas áreas. Da mesma forma, nós lamentamos as formas de falar e agir incompatíveis com a obediência ao nosso Senhor, e das quais precisamos nos arrepender.

2.4 Portanto, nós fazemos os seguintes compromissos: 2.4.1 Nós aceitaremos uns aos outros como Deus em Cristo nos aceitou, a despeito das diferenças teológicas e das questões controversas (Rm 15:7). Nós também assumimos as responsabilidades daí advindas:

  • afirmar e respeitar uns aos outros;
  • tratar uns aos outros no corpo do Messias como irmãos e irmãs, em todo tempo e em qualquer circunstância;
  • buscar ouvir e entender mesmo quando nós não concordamos;
  • comportar-se em relação ao outro com amor, mansidão e paciência.

2.4.2 Nós nos recusamos a denunciar, desumanizar ou demonizar uns aos outros ou nossas respectivas comunidades. Não daremos “falso testemunho contra [o nosso] próximo”, não espalharemos “declarações falsas” e nem seguiremos “a maioria para fazer o mal” (Êxodo 20:16; 23:1-2). Nós evitaremos espalhar fofocas, rumores, calúnias, alegações infundadas e mentiras – seja pelo “boca a boca”, por vias impressas ou por mídias sociais, blogs, etc.

2.4.3 Nós obedeceremos as instruções de Jesus em Mateus 18 em situações de disputas entre irmãos e irmãs em nossas respectivas comunidades. Nós não levaremos a público nossas queixas contra um irmão ou uma irmã, nem contra organizações ou ministérios por eles representados, até que tenhamos conversado com eles pessoalmente, e, em oração, tratado sobre os temas, juntamente com outros discípulos de  Cristo maduros na fé. 

2.4.4 Nós oraremos uns pelos outros, na intuito de alcançar o melhor interesse alheio ao invés do nosso próprio, carregando os fardos uns dos outros, desenvolvendo amizades e redes de contato, e explorando formas de trabalharmos juntos na comunhão do evangelho sempre que possível.

2.4.5 Nós envidaremos todo esforço para manter nossa comunhão uns com os outros como testemunho da união do corpo do Messias e do infinito amor de Deus por todas as pessoas.

2.4.6 Quando nós nos envolvermos em questionamentos legítimos quanto a ações, posicionamentos e ensinos de alguém, nós o faremos de maneira compatível com os compromissos acima citados.

3. Nós reconhecemos as seguintes áreas de desafios e desacordos.

Apesar de haver uma necessidade de reflexão teológica mais aprofundada e de ação colaborativa em todas as seguintes áreas, nós cremos, no entanto, que nossa unidade na família de Deus nos desafia também a fazer afirmações em comum e os compromissos mútuos relacionados a elas.

3.1 Compreender nossas narrativas diversas

Como Judeus Messiânicos e Cristão Palestinos, nós reconhecemos que nossas narrativas históricas encontram-se frequentemente em conflito entre si e, em muitos casos, mutuamente exclusivas, em particular acerca de eventos dos últimos 100 anos e do estabelecimento do estado de Israel e os eventos que culminaram nisso.

Muitos Judeus Messiânicos enxergam o retorno dos Judeus à terra e o estabelecimento do estado de Israel como um sinal da fidelidade de Deus a Seu povo Israel. Muitos veem o controle de Israel sobre os territórios como algo necessário para manutenção da segurança e para prevenção de futuro agravamento, e alguns veem isso como parte da promessa de Deus para engrandecer Israel e entendem o serviço militar como um dever para com o país.

Muitos Cristãos Palestinos veem a presença da igreja Cristã em sua terra como um testemunho da fidelidade de Deus, e o estabelecimento do estado de Israel como uma catástrofe para o seu povo. Eles enxergam o problema dos refugiados Palestinos, a falta de igualdade em Israel, a constante ocupação, e a expansão dos assentamentos em terras Palestinas como algo ilegal e injusto. Eles percebem que sua sobrevivência e seu dever é imprimir resistência – por meios não-violentos, legais e pacíficos – em tais injustiças.

Apesar de nossas diferentes visões, nós nos comprometemos a escutar uns aos outros, a aprender de e respeitosamente contestar a narrativa do outro, a avaliar criticamente nossa própria narrativa e a trabalhar em prol de uma narrativa inclusiva e construtiva.

3.2 Reconhecer nossas identidades sociais

Neste contexto de conflitos sociais e políticos, nós enfrentamos o desafio de aceitar e respeitar as identidades de cada um. Nossa autodefinição como Judeus Messiânicos e Cristãos Palestinos não deve nos impedir de aceitar a legitimidade do outro. Nós devemos reconhecer nosso mútuo pertencimento ao corpo do Messias, apesar de vivermos em nossas sociedades divididas.

3.3 Ampliar nossas teologias

3.3.1 Nós reconhecemos que existem convicções teológicas profundamente arraigadas em ambos os lados, as quais – nas mentes e nos corações de quem as cultiva – são justificadas com base na exegese e na interpretação bíblicas. Todos nós afirmamos que nos submetemos à autoridade das Escrituras em ambos os Testamentos como uma dimensão necessária de nossa submissão a Jesus como Messias e Senhor. Todos nós buscamos compreender e interpretar as Escrituras da maneira mais fiel possível e aplicá-la ao nosso contexto e às questões que surgem aí. No entanto, nós discordamos em alguns pontos fundamentais.

3.3.2 Nós temos a intenção de ouvir mais cuidadosamente uns aos outros, para que possamos entender profundamente mesmo quando discordarmos. Nós evitaremos rotular depreciativamente as visões que se diferem da nossa, como uma desculpa para não nos envolver com os outros na construção de uma exegese bíblica cuidadosa, respeitosa e mutuamente crítica. Nós reconhecemos que o que para cada comunidade é um axioma teológico pode ser causa de dor para a outra comunidade, enquanto negação da identidade ou dos direitos.

3.3.3 Mesmo que estejamos convencidos de nossas próprias posições e desejemos continuar a dialogar e questionar uns aos outros, nós não esperamos que os outros mudem seus posicionamentos e aceitem os nossos como pré-condição para nossa comunhão. Ao contrário, nós clamamos por uma postura teológica generosa que dá espaço para e respeita as convicções de consciência dos outros, que as buscam sinceramente na leitura das Escrituras. Nós nos comprometemos a esclarecer nossos posicionamentos em situações em que eles possam ser interpretados de maneira a ferir ou excluir outros. Da mesma forma, nós esperamos a mesma postura dos outros.

3.3.4 Por exemplo:

Alguns de nós creem que a aliança incancelável de Deus para com Israel continua a incluir a promessa da terra aos povos Judeus como descendentes de Abraão, Isaque e Jacó, e que o retorno dos Judeus à terra e o estabelecimento do estado de Israel constituem o cumprimento de profecias bíblicas. No entanto, nós rejeitamos a interpretação desta convicção teológica que nega a identidade, a história e a condição de povo dos Palestinos e seu direito de permanecer na terra de seus ancestrais. E nós reconhecemos e lamentamos junto com eles o sofrimento, a morte e a injustiça causados por tal negação.

Alguns de nós creem que todas as promessas de aliança feitas por Deus, incluindo a terra, estão cumpridas no Messias Jesus como o Único que encarna a verdadeira filiação e herança de Israel, abarcando toda a terra e todas as nações. Todos aqueles de outras nações que estão unidos a Cristo pela fé compartilham da herança que é dEle e são a semente de Abraão e seus herdeiros de acordo com a promessa de Deus. Nós rejeitamos, entretanto, a interpretação desta convicção teológica que nega o direito dos Judeus a uma terra-natal segura e rejeita a realidade e a legitimidade do estado de Israel. E nós reconhecemos e lamentamos junto com eles o sofrimento e a morte causados pelo ódio e pela violência daqueles que buscam destruí-los.

Outras questões teológicas precisam ser abordadas e trabalhadas num espírito semelhante.

4. Como crentes em Jesus, nós renovamos nossa esperança fundada na Bíblia, nós afirmamos nossa fé no evangelho que transforma pessoas e situações, e nós aceitamos que temos um papel a desempenhar neste processo.

Nós nos comprometemos às seguintes intenções e ações:

4.1 Ser apoiadores uns dos outros em nossas comunidades, especialmente durante tempos de crescente violência;

4.2 Criar uma plataforma segura e privada para manter comunicação entre nós;

4.3 Esforçar-nos para nos encontrar em amizade;

4.4 Buscar e receber informação sobre os conflitos a partir de nós mesmos, ao invés de confiar somente nas nossas mídias;

4.5 Estar cientes do enorme papel que as mídias sociais desempenham em nosso conflito, e, assim, ser sensíveis, honestos e abertos para o nosso uso das mídias sociais, e manter comunicação uns com os outros;

4.6 Lembrar e reconhecer as limitações e os potenciais perigos da comunicação não-direta;

4.7 Consultar uns aos outros durante nosso processo de tomada de decisão que poderia diretamente afetar nossos irmãos e nossas irmãs do outro lado;

4.8 Discutir nosso papel na reconciliação dentro de nossas comunidades, especialmente daqueles entre nós que são líderes emergentes da presente geração;

4.9 Convidar e desafiar nossos colegas e líderes a envolver-se em um diálogo salutar e de reconciliação;

4.10 Orar por nós mesmos, pelas nossas autoridades e uns pelos outros a seguinte oração:

Senhor, fazei de mim um instrumento da Vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvidas, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais: consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive para a vida eterna.

Oração da Paz - Francisco of Assis

Conclusão

Nós convidamos nossas comunidades na terra e fora dela, juntamente com a família de Deus reunida pelo mundo, a orar conosco para que sejamos fiéis às nossas afirmações e aos nossos compromissos expressos aqui, bem como para que o constante trabalho desta iniciativa possa render frutos para o reino de Deus e para Sua glória.

Todos nós que participamos nesta consulta concordam e aprovam esta Declaração de Larnaca. Alguns de nós, devido à sensibilidade do contexto ou por razões pessoais, preferiram não divulgar nossos nomes.

Comitê Diretivo
Richard Harvey (co-presidência)
Munther Isaac (co-presidência)
Lisa Loden
Botrus Mansour
Salim Munayer

Outros participantes
Najed Azzam
Yoel Ben David
Jamie Cowen
Bishara Dib
Eli Dorfman
Danny KoppNeeman Melamed
Jack Munayer
Mazan Nasrawi
Tomeh Odeh
Rasha Saba
Rawan Sabbah
Albert Saliba
Shadia Qubti
Sharona Weiss
David Zadok
Saleem Anfous

Janeiro 2016

Notas finais

  1. As citações bíblicas foram retiradas da versão NVI.
  2. O Compromisso da Cidade do Cabo é uma declação do Terceiro Congresso de Lausanne, sediado na Cidade do Cabo, África do Sul, em outubro de 2010.
  3. 2 Tessalonicenses 2:13-14; 1 João 4:11; Efésios 5:2; 1 Tessalonicenses 1:3; 4:9-10; João 13:35.
Navigation