O reavivamento de Asbury e nossa fome de Deus

Reflexões de um líder do Movimento de Lausanne

Billy Coppedge | 27 fev 2023

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Uma única pergunta percorre toda a experiência humana desde o jardim do Éden: Quem será capaz de saciar a minha fome?

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos” – Mateus 5.6

Em 8 de fevereiro de 2023, Deus visitou de forma verdadeiramente singular a Universidade de Asbury, na pequena cidade de Wilmore, Kentucky, Estados Unidos. Como catalisador do Movimento de Lausanne para a oralidade que mora em Wilmore, você pode imaginar a minha surpresa e de minha família quando, de repente, nos demos conta de que testemunhávamos uma história muito maior do que poderíamos imaginar. O que começou como uma típica reunião matinal de quarta-feira na capela da universidade, com cerca de dezenove alunos que decidiram permanecer ali para orar, evoluiu para um tremendo mover de Deus que, a certa altura, a polícia local foi obrigada a bloquear o principal acesso a Wilmore, por causa do grande tráfego de pessoas que vinham buscar a Deus. Esse mover de Deus merece uma reflexão mais profunda, especialmente para nós, que partilhamos da visão de Lausanne para que o mundo conheça Jesus Cristo.

Características do reavivamento de Asbury

Humildade radical

A primeira característica impactante desse avivamento, na minha opinião, foi o espírito sincero de humildade que vi refletido de várias maneiras nesses últimos dias. Desde o início, aquelas pessoas se dirigiram ao altar do auditório Hughes de Asbury e humilharam-se diante de Deus e dos outros movidas por um profundo quebrantamento de espírito. Estudantes universitários e visitantes de Asbury se ajoelharam no antigo altar de madeira, confessando seus pecados, declarando sua necessidade de Deus, reconhecendo seus temores, expressando sua vergonha e admitindo feridas profundas. Minha esposa e eu tivemos o privilégio de orar com algumas pessoas naquele altar. Ouvi-las expressar sua vulnerabilidade diante de Deus e de estranhos como nós foi impressionante e profundamente comovente.

DEUS ESTAVA AGINDO E ELE PARECIA TOTALMENTE CAPAZ DE FAZÊ-LO SEM A AJUDA DE CELEBRIDADES CRISTÃS.

Essa humildade também se refletiu na liderança da Universidade de Asbury. Quando entrei no auditório pela primeira vez, fiquei impressionado com o grande número de pessoas ali presentes adorando a Jesus. Um de meus primeiros pensamentos foi que isso poderia ser vantajoso para a universidade. Eles poderiam lucrar de alguma forma com todos esses visitantes e atrair a atenção da mídia. No entanto, foi extraordinário testemunhar o reitor da universidade apresentar-se não com um título ou diploma, mas em atitude de reverência: “Meu nome é Kevin e tenho o privilégio de trabalhar aqui”. Vários líderes cristãos conhecidos se ofereceram para ajudar na pregação ou no louvor, mas essas ofertas gentis foram humildemente recusadas – não porque esses líderes não fossem capazes de contribuir, mas porque a liderança da universidade preferiu evitar qualquer confusão. Deus estava agindo e ele parecia totalmente capaz de fazê-lo sem a ajuda de celebridades cristãs. A postura, portanto, não tem sido: “Como podemos usar isso para os propósitos da universidade?”, mas sim: “O que devemos fazer para não interferir no mover da glória?”

Fome de Deus

A segunda característica que experimentei desse despertar de Deus é uma fome quase insaciável do Senhor. Hoje posso afirmar que o avivamento de Asbury em 2023 é uma história que começou com 19 corações famintos pedindo a Deus para serem cheios dele e com a extraordinária realidade de Deus atendendo esse clamor.

NA VERDADE, TODOS NÓS TEMOS FOME DE DEUS E, CONFORME JESUS NOS LEMBROU EM SUA EXPERIÊNCIA NO DESERTO, O PÃO SEM DEUS NÃO SATISFAZ.

O tema da fome é familiar sob muitos aspectos; é parte da experiência de todo ser humano. Com mais tempo, poderíamos estudar sobre a fome analisando passagens bíblicas estratégicas, como Mateus 4, Isaías 55, Êxodo 16, Gênesis 25 ou mesmo Gênesis 3. É evidente, contudo, a pergunta que percorre toda a realidade humana desde o jardim do Éden: “Quem será capaz de saciar a minha fome?” Na verdade, todos nós temos fome de Deus e, conforme Jesus nos lembrou em sua experiência no deserto, o pão sem Deus não satisfaz. Não há quantidade de pão físico ou metafórico, representado neste mundo por sexo, reputação, conquistas, ministério, família, dinheiro, beleza, likes ou seguidores, que satisfará a fome do coração humano. A razão é que todas essas fomes, embora às vezes pareçam primárias em nossa essência, são na verdade testemunhas secundárias de um desejo prioritário: nossa fome de Deus.

Afirmo que essa é a única explicação para o que motivou as pessoas a agirem da forma como têm agido nesses últimos dias. Milhares delas se dirigiram à uma cidadezinha pacata no centro do Estado de Kentucky. Um casal do Chile vendeu seu automóvel, comprou passagens aéreas e viajou a Lexington, Kentucky, para chegar ao auditório de uma pequena universidade. Um célebre jogador de basquete com um magnífico anel no dedo dirigiu uma hora e meia de Louisville para se ajoelhar no altar diante de 1.400 pessoas e pedir que Deus purificasse seu coração. Um homem de trinta anos, em jejum e oração, viajou por dez horas desde Nova Jersey e chegou a mentir sobre sua idade para ser incluído na sessão de “vinte e cinco anos ou menos” e ali buscar orientação. Pessoas vieram de Estados mais próximos como Ohio, Indiana e Tennessee e de outros tão distantes como Washington, Oregon e Havaí. Esse cenário não pode ser considerado normal ou típico. Então, o que motiva as pessoas a buscarem a Deus dessa maneira? Elas têm fome de Deus.

ASSIM COMO JESUS PROMETEU EM MATEUS 5.6, PODEMOS DAR TESTEMUNHO DE QUE OS QUE TÊM FOME E SEDE ESTÃO SENDO SACIADOS COM O PRÓPRIO DEUS.

É preciso reconhecer que, embora tenhamos testemunhado curas físicas e libertações de vários tipos e louvado a Deus por elas, essas manifestações milagrosas do poder de Deus não foram o foco do avivamento. Em vez disso, o espírito de arrependimento, a confissão de pecados e a buscar por um romper espiritual têm sido a norma. Em um ambiente como esse, as questões que ocupam o coração das pessoas são: como obter a salvação, o desejo de orar pela rendição completa, o desejo de abandonar o vício em pornografia, a confissão do abuso de substâncias, o reconhecimento da falta de perdão, a busca por perdão pelo adultério, a tristeza pela infertilidade, as questões relacionadas a enfermidades, o reconhecimento da idolatria esportiva e da inveja. Estes são apenas alguns dos temas que as pessoas derramaram aos pés de Jesus, reconhecendo sua dor, suas dúvidas, seu pecado, seu quebrantamento, sua vulnerabilidade, seu medo e sua vergonha.

Em meio a tanta fome, o elemento mais notável é a fidelidade de Deus em encher as pessoas de si mesmo por meio do poder do seu Espírito Santo. Assim como Jesus prometeu em Mateus 5.6, podemos dar testemunho de que os que têm fome e sede estão sendo saciados com o próprio Deus.

Uma mentalidade de “vir para ir”

A terceira característica que observamos nesses dias em Asbury foi um clamor pelo mundo. Várias nações vieram a Wilmore. Homens e mulheres do Chile, Canadá, África do Sul, Reino Unido, Nigéria, Brasil, Coreia do Sul, Rússia, Noruega, Haiti, Mianmar e Israel têm vindo buscar a Deus. Mas eles não vêm apenas para que Deus os encontre – querem voltar a seus locais de origem e pedem a Deus que visite seus países também.

Presenciei essa mentalidade de “vir para ir” enquanto orava com algumas pessoas no altar, certa tarde. Um jovem tinha uma bandeira sobre os ombros. Perguntei a ele o que Deus estava lhe dizendo e ele me disse que tinha vindo da Cidade do México. Após um voo com escala em quatro cidades, ele dirigiu até Wilmore. Trouxe uma bandeira mexicana porque queria ver esse mover de Deus no México. Em seguida, colocou sobre o altar uma camiseta branca com o logotipo de seu grupo de jovens e disse: “Isso representa os jovens do México. Você pode orar comigo pela juventude do México?”

Juan e eu, então, nos ajoelhamos no altar no auditório Hughes e clamamos para que Deus visitasse o México e, especificamente, que salvasse os jovens daquela nação e derramasse sobre Juan uma unção especial quando ele retornasse. Foi um momento santo e sagrado. Curiosamente (e confirmando isso) Juan completou 18 anos há apenas três meses. O que motiva alguém tão jovem a pagar o preço de vir a um lugar tão isolado como Wilmore? Afirmo mais uma vez: fome de Deus. Vale a pena frisar que Juan não estava lá por si mesmo, mas porque Deus lhe dera um clamor pelos jovens de seu país.

Eis aqui a profunda conexão entre o avivamento de Asbury e o Movimento de Lausanne. Os membros de Lausanne creem, essencialmente, que somente o evangelho do Senhor Jesus Cristo satisfará a fome de cada homem, mulher e criança em todo o mundo. Por que estamos tão comprometidos com os quatro pontos da visão de Lausanne – o desejo de ver o evangelho para cada pessoa, uma igreja evangélica para cada povo, líderes como Cristo em cada igreja e o impacto do reino em cada esfera da sociedade?

O MOVIMENTO DE LAUSANNE EXISTE PORQUE TEMOS FOME DE DEUS E SABEMOS QUE SÓ ELE PODE SACIAR A FOME DAS PESSOAS DESTE MUNDO, E ESSE É O NOSSO CLAMOR.

É porque acreditamos que só há plena satisfação em um relacionamento com Jesus Cristo (e sua noiva, a Igreja). O Movimento de Lausanne se atém ao que dizem os versículos 16 e 19 do Salmo 145: somente Deus pode realizar os desejos e satisfazer a fome de cada coração. Em última análise, essa é a razão pela qual participamos e nos voluntariamos em jornadas e encontros como Lausanne 4 e Seul 2024. O Movimento de Lausanne existe porque temos fome de Deus e sabemos que só ele pode saciar a fome das pessoas deste mundo, e esse é o nosso clamor.

Durante esses dias de avivamento, o auditório Hughes da Universidade de Asbury foi tomado por uma diversidade de gerações e etnias que remete ao Movimento de Lausanne, todas elas se curvando diante do Senhor Jesus. Lembro-me do trecho final das Escrituras, onde vemos representantes de todas as nações, tribos, povos e línguas também se curvando em adoração a Deus e ao Cordeiro. Curiosamente, no final da história, o apóstolo João ecoa o já familiar tema da fome e da sede:

O Espírito e a noiva dizem: “Vem!” E todo aquele que ouvir diga: “Vem!” Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida.

Talvez você esteja se perguntando: “Então, o que posso fazer?” ou “O que devo fazer para que Deus se mova também na minha comunidade?”

Minha resposta a essa boa pergunta, seria apenas: “Ore pedindo fome”.

Billy Coppedge e sua esposa Joanna viveram e trabalharam em Uganda por muitos anos com a Missão Evangélica Mundial. Sua paixão é ajudar as pessoas a encontrar Jesus por meio da Palavra de Deus. Billy é PhD em Cristianismo Mundial pela Universidade de Edimburgo, com sua pesquisa focada principalmente na oralidade e no engajamento das Escrituras no cristianismo de Uganda. Com seu projeto Lausanne Co-Catalysts for Orality, ele é mediador do podcast sobre oralidade God Speaks: Conversations on Orality and the Gospel.