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Celebrando 50 Anos do Pacto de Lausanne: Caminhos para a Unidade

Guilherme Dutra 30 jan 2026

É hora de restaurar a arte perdida das discussões da igreja.

Tudo começou em Seul, na Coreia do Sul, durante o Lausanne 4, em especial após a exposição de Atos 15 feita por Anne Zaki. Naquela ocasião, Anne nos exortou dizendo:

“É hora de restaurar a arte perdida das discussões da igreja. A arte de falar e de ouvir um ao outro, mesmo aqueles que se opõem aos nossos pensamentos, mesmo aqueles que se opõem às nossas interpretações bíblicas, ou à nossa forma de orar, ou a quem deve liderar a igreja. […] Não divida o que Jesus uniu. Não faça distinções onde Jesus não fez.”

Essa fala nos impactou profundamente, pois revelou um pecado da Igreja Brasileira: estamos polarizados, divididos; temos perdido a capacidade de sentar à mesa, dialogar e ouvir uns aos outros com respeito, ainda que tenhamos diferenças. A Igreja Brasileira tem separado o que Jesus uniu, e feito distinções onde Ele não fez.

Ao refletirmos sobre isso, reconhecemos que somos parte da Igreja Brasileira e que esse pecado também nos diz respeito. Cabe a nós buscarmos a restauração dessa arte perdida — a de sentar juntos, dialogar e até discutir — sem permitir que nossas diferenças nos dividam. É nosso chamado trabalhar pela restauração da nossa comunhão.

O próprio Cristo orou por isso, na Oração Sacerdotal em João 17:

“Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste.” (João 17:22-23)

Pacto de Lausanne: Uma Resposta Brasileira

Nós cremos nessas palavras. Cremos que a nossa unidade, como Igreja de Cristo, revelará ao mundo o amor de Deus. Foi nesse espírito que Daniel Palombo idealizou o projeto “Pacto de Lausanne: Uma Resposta Brasileira”, que une documentário, podcasts e encontros públicos em torno do legado espiritual de Lausanne, agora relido à luz dos desafios contemporâneos do Brasil e da nova geração.

O encontro público aconteceu nos dias 29 e 30 de Julho de 2025, em Brasília. Nessa ocasião, pastores e líderes cristãos de todo o Brasil se reuniram para celebrarem os 50 anos do Pacto de Lausanne. E que bela celebração tivemos! Que alegria foi testemunhar tamanha diversidade da Igreja Brasileira reunida naquele lugar, irmãos e irmãs vindos de todas as regiões do país: do Nordeste às capitais do Sul, de pequenas igrejas do interior às grandes comunidades urbanas. Pastores experientes e jovens líderes, mulheres e homens, missionários, teólogos, músicos e empreendedores do Reino. Estavam ali representantes de igrejas históricas e pentecostais, bem como diversos movimentos interdenominacionais e organizações missionárias.

Foi inspirador ver, nas mesas e nas celebrações, gerações se encontrando, estilos de adoração se misturando e sotaques se entrelaçando. Também foi marcante perceber o diálogo entre diferentes tradições teológicas, entre irmãos e irmãs com trajetórias sociais e visões políticas distintas, porém unidos na mesma fé e no mesmo Evangelho.

É verdade que o encontro poderia ter sido ainda mais diverso e representativo, considerando a grandeza e a pluralidade do nosso país. No entanto, entre o ideal e o real, o que vivenciamos naqueles dias foi uma memorável expressão da diversidade do Reino de Deus. E, diante do cenário de extrema polarização que marcava os últimos anos, não há dúvidas de que este encontro se tornou um momento histórico para a Igreja Brasileira.

Mais do que uma celebração, estávamos lá também para reafirmar nosso compromisso com o Pacto de Lausanne, e para responder a ele.

Mais do que uma celebração, estávamos lá também para reafirmar nosso compromisso com o Pacto de Lausanne, e para responder a ele. A programação do evento foi inspiradora, marcada principalmente pela dinâmica de fala e resposta entre pastores e líderes da antiga e da nova geração.

Diálogos Intergeracionais

Em cada um dos 15 pontos do Pacto de Lausanne, um representante dos líderes sêniors reafirmava sua fé diante dos mais jovens, compartilhando a importância e a relevância daquele ponto para a história da Igreja e para a sua própria caminhada. Em seguida, alguém da nova geração respondia, trazendo sua perspectiva sobre o mesmo ponto e assumindo, diante dos mais velhos, o compromisso de seguir testemunhando o Evangelho de Cristo onde Ele nos chamou.

Nesse diálogo, foi possível notar tanto a convergência quanto às diferentes ênfases de ambas as gerações. Enquanto os líderes mais experientes, como Ricardo Barbosa, ressaltaram que “Lausanne devolve a igreja a sua missão recomposta, o evangelho todo para o homem todo e para todos os homens”, os mais jovens, como Lucas Pegoraro, enfatizavam a forma como essa missão é comunicada: “O nosso como também comunica a mensagem e ele tem que apontar para essa redenção, para a bondade e graça de Deus.”

Um dos temas que emergiu desse diálogo foi a relação entre o Evangelho e a Cultura. Igor Miguel nos lembrou que “Deus tem interesse em redimir riquezas culturais e trazer para o culto as cores, ritmos e sensibilidades das diferentes culturas.” Gabriel Pacheco complementou, afirmando que “O cristão é chamado a ter uma presença fiel no mundo: presença porque não se ausenta do mundo, e fiel porque não se conforma com ele.”

Essa troca de perspectivas, onde a sabedoria da experiência encontra o vigor da juventude, evidenciou quão necessário e transformador é o diálogo intergeracional. Em um mundo onde as gerações frequentemente se isolam em suas próprias bolhas, descobrimos que há uma imensa riqueza quando nos dispomos a ouvir e aprender uns com os outros.

Essa troca de perspectivas, onde a sabedoria da experiência encontra o vigor da juventude, evidenciou quão necessário e transformador é o diálogo intergeracional. Em um mundo onde as gerações frequentemente se isolam em suas próprias bolhas, descobrimos que há uma imensa riqueza quando nos dispomos a ouvir e aprender uns com os outros. De igual modo, essa descoberta pode ressoar em toda a Igreja Global, inspirando comunidades em seus mais diversos contextos a criarem espaços onde gerações distintas não apenas se tolerem, mas se busquem ativamente, se ouçam com respeito e caminhem juntas na missão de Cristo.

O Encontro 50 Anos do Pacto de Lausanne foi também um momento de relembrar as bases da nossa fé. “Reafirmar a autoridade e o poder das escrituras”, apontou André Pereira, “é reafirmar nossa certeza no amor de Deus, num Deus que se revela, num Deus que convida ao relacionamento” — e cuja presença pelo Espírito Santo é essencial para a missão. Nas palavras de Durvalina Bezerra, “é o Espírito quem gera o fruto do amor e forma o caráter de Cristo na vida do crente”. Fomos também desafiados a viver uma missão que une proclamação e amor, pois, como expressou Eliseu Nogueira, “a proclamação da exclusividade de Cristo não é incompatível com um amor radical, é o amor quem dá credibilidade à nossa mensagem.”

O Legado do Pacto de Lausanne

Este encontro, em muitos aspectos, foi fruto direto do legado deixado pelo documento de 1974. “O Pacto [de Lausanne] não é apenas um documento histórico; ele continua sendo um espelho que nos convida a reconhecer falhas, buscar arrependimento e trilhar o caminho da reconciliação e do avivamento. Há um chamado claro à unidade, ao testemunho fiel e à missão integral, com coragem e humildade.”1

O apelo ao arrependimento foi constantemente enfatizado durante o evento. Paulo Cappelletti afirmou que “a igreja brasileira está dopada pelas massas, e não consegue investir na vida dos necessitados.” Jacira Monteiro foi igualmente direta: “A igreja tem sido injusta, causando mágoas e abusos espirituais”, e criticou a falha em “integrar a proclamação (evangelização) e a ação social (justiça), tratando-as como opcionais ou separadas.” Marcos Amado nos alertou sobre a necessidade de nos envolvermos com a sociedade “sem nos atrelarmos a culturas, sistemas sociais, sistemas políticos ou ideologias humanas específicas.”

Tais exortações ecoam desafios que transcendem fronteiras. A coragem de nomear nossos próprios pecados como Igreja — a busca por relevância que nos afasta dos marginalizados, os abusos de poder que ferem o rebanho, a dicotomia artificial entre proclamação e justiça, a captura ideológica que compromete nosso testemunho — pode inspirar a Igreja Global a fazer o mesmo exercício de humildade. Cada contexto terá suas próprias falhas a confessar, suas próprias feridas a curar. Em regiões marcadas por guerras e conflitos, onde irmãos e irmãs se encontram em lados opostos de trincheiras políticas, étnicas ou territoriais, esse chamado ao arrependimento e à reconciliação torna-se ainda mais urgente e desafiador. Mas é justamente nessa vulnerabilidade compartilhada, nesse reconhecimento honesto de que todos nós falhamos e precisamos da graça de Deus, que encontramos o caminho para a verdadeira reconciliação e avivamento.

É necessário haver um arrependimento individual e coletivo dos nossos pecados. Precisamos aprender a pedir perdão uns aos outros. Precisamos, juntos, percorrer o caminho da reconciliação, que nos conduzirá de volta à mesa, à comunhão, ao partir do pão. E cada um de nós tem uma responsabilidade essencial nessa jornada.

Comunhão na diversidade de vozes

A comunhão à mesa também ocupou um lugar central no encontro. Com duas horas reservadas para cada refeição — almoço e jantar —, o tempo de mesa foi vivido de forma intensa e carregado de significado. Ali nos misturamos; ali presenciamos reencontros que há anos não aconteciam; ali vimos diferentes gerações dialogando, trocando histórias, emoções e gargalhadas; ali aconteceram conversas profundas e até acaloradas, mas sem que isso nos dividisse. Foi à mesa que fortalecemos os vínculos e exercitamos, na prática, a arte de falar e de ouvir uns aos outros.

Nesse contexto de mesa compartilhada, de diálogo e de comunhão restaurada, a temática da unidade ganhou vida.

Nesse contexto de mesa compartilhada, de diálogo e de comunhão restaurada, a temática da unidade ganhou vida. André Pereira nos lembrou uma verdade essencial: “nós precisamos uns dos outros, precisamos das ênfases diferentes das tradições e denominações diferentes, nós precisamos uns dos outros, assim como a Igreja Global precisa das etnias e das culturas diferentes.” Essa dependência mútua não é fraqueza, mas a expressão mais autêntica do corpo de Cristo. Como afirmou Gabê Almeida, “a unidade preserva a diversidade, e a diversidade enriquece o corpo de Cristo.” O Encontro 50 Anos do Pacto de Lausanne foi uma demonstração viva dessa verdade: não buscamos uniformidade, mas unidade; não apagamos diferenças, mas as celebramos como dádivas de Deus para o enriquecimento de toda a Igreja.

Esse é o nosso desejo, não apenas para a Igreja Brasileira, mas para a Igreja Global. Que este encontro em Brasília possa inspirar e impulsionar muitos outros: encontros repletos de mesa, conversas, discussões, exortações, arrependimentos e reconciliações. Que possamos nos inspirar naqueles que já fizeram isso antes de nós. Daniel Palombo expressou essa esperança na primeira noite do encontro, ecoando o mesmo espírito de humildade e colaboração que marcou a criação do Pacto de Lausanne:

“O motivo de eu estar aqui é que eu acredito que a minha geração também pode ser um testemunho do Cristo, e pode aprender a dialogar com respeito, como Cristo ensina. E a gente pode ter o mesmo espírito que passou por John Stott e por aqueles homens [que estiveram em Lausanne em 1974], de como a gente pode caminhar junto. Eu sei que isso não é fácil. Eu sei que tem milhares de pessoas — a história da igreja está aí pra mostrar — que já fizeram isso antes de mim. Mas eu me inspiro e quero me juntar a essa nobre nuvem de testemunhas.”

Desafiamos a Igreja Brasileira e a Igreja Global para que, apesar das nossas diferenças, saibamos andar lado a lado, dialogando e ouvindo uns aos outros em amor; que todos nós permaneçamos unidos na fidelidade a todo o Evangelho e, em obediência, o proclamemos a todas as nações. Assim, ao nos juntarmos a essas nobres testemunhas de fé e reconciliação, possamos viver essa unidade de forma visível, revelando ao mundo o amor de Deus. Amém.

Endnotes

  1.  Daniel Palombo, prefácio da nova edição do livro “John Stott comenta o Pacto de Lausanne”

Autoria (bio)

Guilherme Dutra

Guilherme Dutra é casado com Daphne, pai de Benjamin e Marina. É presbítero da Igreja Batista Fonte de Sicar (São Paulo/SP), formado em Teologia (M.Div.) pelo Seminário Servo de Cristo, e em Ciências da Computação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.