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Usamos palavras para nos comunicar, mas a forma como elas são usadas muda com o passar do tempo. Transforming Mission[1] [Missão transformadora], obra de David Bosch, descreve como o entendimento da igreja a respeito da obra missionária passou por nada menos que seis mudanças de paradigma em dois mil anos. Porém, nos últimos 60 ou 70 anos, a visão missionária foi dominada pelo entendimento de que as missões são uma obra de Deus. A obra missionária não é apenas uma atividade da igreja, mas sim, de forma mais fundamental, uma oportunidade de participar na Missão de Deus. Somos convidados, como igreja ou individualmente, como discípulos, a nos unirmos ao Espírito em sua obra no mundo e ao nosso redor.

A obra missionária não é apenas uma atividade da igreja, mas sim, de forma mais fundamental, uma oportunidade de participar na Missão de Deus.

Desde o Terceiro Congresso Lausanne sobre Evangelização Mundial em 2010, na Cidade do Cabo, o Comitê Nacional Espanhol do Movimento de Lausanne tem o compromisso de promover uma abordagem focada na Missão de Deus dentro da igreja na Espanha. Este compromisso despertou em nós[2] o desejo de pesquisar se a compreensão teológica e a prática da “missionalidade” estavam avançando ou retrocedendo nas igrejas evangélicas espanholas.

Como podem ser avaliadas a compreensão e a prática missional?[3] É possível medir o grau em que essa compreensão foi assimilada e colocada em prática? Não existem ferramentas para medir tal realidade multidimensional e, como expliquei em outro lugar, o trabalho de avaliar a missão é repleto de dificuldades.[4]

Metodologia de pesquisa

Adotando a Grounded Theory[5] como abordagem para explorar as dimensões desconhecidas da compreensão e da prática missional, desenvolvemos um questionário de duas partes como ferramenta de pesquisa. Este questionário foi enviado a pastores e líderes de igrejas evangélicas durante a primavera e o verão de 2018, e 403 líderes enviaram suas respostas – cerca de um em cada oito de todos os líderes de igrejas na Espanha.

A primeira parte do questionário consistia em 18 questões quantitativas, exigindo que o respondente pontuasse sua igreja em uma escala de 1 a 5 em 18 áreas relacionadas à compreensão e à prática missionária. As perguntas estavam divididas em três grupos de seis sob os seguintes títulos: A Proclamação do Reino, a Demonstração do Reino e a Encarnação do Reino.

A segunda parte era composta por quatro questões qualitativas que possibilitaram ao respondente responder livremente. As quatro perguntas eram:

Qual é o propósito da igreja local?

Qual é o propósito da liderança do pastor/da igreja?

O que a Missão de Deus representa para você?

Qual o significado de “missional” para você?

Resultados quantitativos

O relatório completo[6] fornece uma análise detalhada de todas as medidas quantitativas para cada um dos aspectos da Proclamação, Demonstração e Encarnação do Reino de Jesus, mas o gráfico a seguir dá ao leitor uma ideia da riqueza dos dados.

Tabela 2: Grupo de distribuição 1 – Proclamação

1.1 Há oportunidades frequentes para que as pessoas respondam ao evangelho.
14%
32%
54%
1.2 Há oportunidades frequentes para que os membros da igreja aprendam sobre os projetos evangelísticos nos quais podem se envolver.
23%
30%
47%
1.3 A igreja está atenta às necessidades de nossa região/população para determinar se há grupos étnicos, demográficos ou subculturais que não estejam sendo alcançados pela proclamação do Reino de Deus em Cristo.
36%
29%
35%
1.4 A igreja está comprometida com, pelo menos, um projeto evangelístico local ou global.
12%
20%
68%
1.5 A igreja avalia em oração e de forma ativa como pode envolver-se no estabelecimento de uma nova congregação.
35%
19%
46%
1.6 Há um compromisso de orar regularmente como igreja para que incrédulos desta cidade e de todo o mundo possam conhecer Cristo.
12%
13%
75%
Minha igreja não está fazendo nada a respeito dessa questão.
Minha igreja faz isso, mas de forma muito ocasional.
Minha igreja faz isso, mas não muito bem.
Minha igreja faz isso com frequência e razoavelmente bem.
Minha igreja se destaca nessa questão.

As seis métricas usadas para avaliar o aspecto da Proclamação indicam que as igrejas evangélicas espanholas de fato oram pela conversão daqueles que ainda não conheceram Jesus, e que um bom número delas está comprometido com alguma forma específica de proclamação, seja em sua própria cidade ou locais mais distantes. A visão intercultural e o conhecimento da diversidade do contexto local são os aspectos mais fracos das igrejas na Espanha. Nos últimos 20 anos, a migração transformou a demografia das cidades espanholas, mas muitas igrejas não estão atentas à oportunidade de compartilhar o evangelho com o mundo que está à nossa porta.

A plantação de igrejas parece ser mais uma questão simples. Algumas igrejas estão muito cientes da oportunidade de plantar igrejas, enquanto outras parecem estar mais preocupadas com a própria sobrevivência e não consideram essa possibilidade.

Algumas igrejas estão muito cientes da oportunidade de plantar igrejas, enquanto outras parecem estar mais preocupadas com a própria sobrevivência e não consideram essa possibilidade.

No que se refere ao aspecto da Demonstração do Reino, 60% dos líderes afirmaram que as igrejas estão comprometidas com algum projeto social, seja local ou global. Mais uma vez, a resposta mais fraca correspondeu à métrica de atenção às necessidades de grupos étnicos, demográficos ou subculturais em sua vizinhança que não estavam se beneficiando da demonstração da compaixão de Jesus por meio da igreja. Apenas 35% disseram que estavam indo bem ou muito bem.

No geral, o grupo de respostas mais fracas correspondeu ao aspecto da Encarnação do Reino. A resposta mais positiva foi obtida na pergunta aos líderes se a ênfase do evangelho na missão estava sendo ensinada. Mais de três quartos dos entrevistados consideram-se satisfeitos com o que vem sendo feito. No entanto, as respostas à pergunta se a igreja verifica regularmente o tempo dedicado pelos líderes aos assuntos internos da igreja para que liberem tempo para estar em contato com os que não pertencem à igreja revelaram que 35% nunca ou raramente faz isso.

Resultados qualitativos

As respostas às quatro questões qualitativas foram codificadas e as categorias identificadas a partir dos dados. Em alguns casos, elas foram reunidas em macrocategorias.

1. Qual é o propósito da igreja local?

A compreensão predominante nas igrejas evangélicas espanholas quanto ao propósito da igreja pode ser deduzida pela frequência com que certos conceitos foram mencionados nas respostas. Em ordem decrescente de frequência de respostas, o propósito da igreja é Proclamação (73%), Congregação (60%), Demonstração (52%) e Discipulado (29%). No relatório, as subcategorias são tabuladas conforme apresentado abaixo no caso de Proclamação.

Categoria
Número de respondentes
Porcentagem
1. Proclamação
232
73%
Evangelho/Evangelização
132
42%
Proclamar/Pregar o evangelho
77
24%
Testemunho/Ser testemunha/Tornar Jesus conhecido
61
19%
Alcançar não cristãos
51
16%

2. Qual é o propósito da liderança do pastor/da igreja?

Avaliando as respostas a esta questão, descobrimos que era possível abordar a análise a partir de duas perspectivas diferentes. Uma delas enfoca o papel do pastor como líder e a liderança como a tarefa que ele deve realizar. A outra perspectiva entende que a liderança abrange os cinco ministérios principais mencionados em Efésios 4.11, dos quais a tarefa do pastor é apenas um.

Perspectiva pastoral “tradicional”
Treinar
Cuidar
Pregar e ensinar
Administrar
Liderar
Perspectiva de liderança plural (Efésios 4)
Apóstolo
Profeta
Evangelista
Pastor
Mestre

Vistos por uma perspectiva pastoral, os líderes espanhóis entendiam sua tarefa como sendo de treinamento (70%), cuidado (68%), pregação e ensino (40%), administração (35%) e liderança (26%). Como subcategorias de treinamento, estão, entre outras, equipar a igreja para o ministério, evangelismo e desenvolvimento dos dons. O perfil do modelo pastoral revelado é voltado para a edificação dos fiéis. No entanto, essa convicção teórica deve ser contrastada com a realidade de que, infelizmente, o enfoque deste treinamento seja, muitas vezes, a igreja local e não a obra missionária.

O mesmo conjunto de dados visto pelas lentes de Efésios 4 produz uma imagem ligeiramente diferente, que talvez corresponda mais à realidade. Se as categorias de resposta são agrupadas sob os chamados “cinco ministérios”, vemos a seguinte divisão, com as respostas mais comuns correspondendo aos ministérios de mestre (70%), pastor (65%), apóstolo (52%) e as menos comuns, aos de evangelista (35%) e profeta (16%). Notamos com certa tristeza que, quando interpretados dessa forma, os dados revelam que apenas um terço dos líderes da igreja na Espanha entendem que a missão e/ou o evangelismo é um propósito prioritário.

Categoria
Número de respondentes
Porcentagem
1. APOSTÓLICO (Líder)
163
52%
Liderar/Supervisionar/Aconselhar
73
23%
Partilhar/inspirar a missão
63
20%
Ajudar a igreja a alcançar seus propósitos
33
11%
Oferecer visão
24
8%
Coordenar/Administrar/Representar
15
5%
2. PROFÉTICO (Líder)
49
16%
Pregar/Proclamar
32
10%
Discernir
15
5%
Conhecer a região/Detectar necessidades
61
19%
3. EVANGELISTA (Missão)
110
35%
Evangelho/Evangelização
69
22%
Missão/Extensão do Reino
49
16%
Criar pontos de missão/Plantar igrejas
3
1%
4. PASTORAL
204
65%
Pastorear/Cuidar
107
34%
Supervisionar (moral, doutrina, espiritualidade)
53
17%
Ser exemplo
49
16%
Encorajar, motivar, inspirar
41
13%
Servir outros/amar
38
12%
Estimular a comunhão
11
4%
5. MESTRE
219
70%
Ensinar/Edificar
103
33%
Equipar/Instruir
95
30%
Discípulo/Discipulado
41
13%
Desenvolver/Amadurecer
39
13%
Treinar/Cultivar dons
35
11%
Efésios 4
26
8%
Treinar líderes/ delegar
22
7%

3. O que a Missão de Deus representa para você?

Um dos objetivos principais desta pesquisa foi identificar até que ponto os líderes da igreja na Espanha haviam assimilado o conceito de missão como a Missão de Deus. As respostas a esta pergunta foram codificadas e categorizadas e, em seguida, apresentadas em sequência.

Deus delegou a nós
a sua missão

A Missio Dei está colaborando conosco
A Missão de Deus é sua missão soberana

Em uma extremidade da sequência estão as respostas que compreendem que a missão de Deus é uma atividade da igreja ou do crente. A Missão de Deus é entendida como testemunhar/proclamar o evangelho, fazer discípulos, demonstrar amor, tornar o evangelho visível, servir aos que estão ao nosso redor e atender às suas necessidades. Cinquenta e um por cento dos entrevistados entendiam a Missão de Deus como uma comissão divina para a igreja.

No outro extremo da sequência, encontramos aqueles que consideram a Missão de Deus como sendo, essencialmente, de iniciativa divina e soberana. Esses entrevistados entendem que a Missão de Deus seja reconciliar com ele o mundo/povo, redimir toda a criação, glorificar/tornar Deus conhecido na terra ou a salvação completa. Somadas essas respostas, elas chegam a pouco menos de um terço dos entrevistados (30%).

E é claro, entre esses dois extremos, encontramos um conjunto de respostas que entendem a Missão de Deus como colaborar com Deus em sua missão: ter um estilo de vida missionário, servir a Deus, cooperar com ele, ser agente de mudança e transformação, ser presença e influência no nosso contexto, ser sal e luz, entre outras coisas, perfazendo 57% do total.

No conjunto, as respostas ainda se inclinam para o aspecto ativista no que diz respeito aos conceitos do trabalho missionário. Apesar de toda a ênfase na Missão de Deus, o trabalho missionário ainda é visto por muitos na Espanha como uma atividade da igreja.

4. Qual o significado de “missional” para você?

Finalmente, buscamos estabelecer como o termo “missional” era compreendido pelos líderes da igreja na Espanha. As respostas foram muitas e variadas, mas poderiam ser agrupadas nas seguintes categorias: uma atitude do coração para com Deus (44%), a forma como conduzimos nossa vida no cotidiano (35%), influenciar nosso contexto (35%), evangelização (31%), contextualização (10%) e ser missionário (8%). Embora o termo “missional” tenha surgido há menos de 25 anos, a maioria dos líderes está familiarizada com ele, embora o interpretem de maneiras diferentes.

Oferecemos este estudo como um modelo para outros países que queiram avaliar a compreensão e a prática missional.

Conclusões

Nosso estudo descobriu que os líderes da igreja evangélica na Espanha continuam a dar grande importância à proclamação do evangelho, mas precisam dedicar mais ênfase ao discipulado. Embora a proclamação seja considerada o propósito principal da igreja, missões e evangelismo não são algo visto como a tarefa principal dos líderes da igreja. A Missão de Deus e o termo “missional” são amplamente compreendidos e usados, mas ainda predominam os que os consideram como uma tarefa que ele delegou à igreja.

A intenção do grupo que conduziu essa pesquisa é repeti-la daqui a alguns anos para perceber a evolução desse entendimento. Este estudo, de certa forma, é apenas um ponto de partida e devemos tomar cuidado para não sermos excessivamente categóricos em sua interpretação. Tendo em vista que este estudo foi realizado antes da pandemia da COVID, a comparação será muito interessante.

Até que ponto esses resultados podem ser generalizados para locais além da Espanha? Eu diria que algumas dessas características podem ser evidentes em outros países europeus,[7] e quem sabe até globalmente, mas o leitor é quem deve julgá-lo. A necessidade de uma maior ênfase no discipulado é comum em muitos países ao redor do mundo. A ênfase exagerada nas necessidades internas da igreja em detrimento da missão e do evangelismo é outro desafio.

Oferecemos este estudo como um modelo para outros países que queiram avaliar a compreensão e a prática missional. Cremos que isso pode ser parte de um processo para encorajar as igrejas de um determinado país a participarem da Missão de Deus.[8]

 

Notas finais

  1. David Bosch, Transforming Mission (Maryknoll: Orbis, 1991).
  2. O relatório foi escrito pela equipe que projetou, coletou e analisou os dados em nome do Comitê Lausanne da Espanha: Ron Anderson, Eliseo Casal, Jaume Llenas, Jim Memory e Francisco Mira. https://lausanne.org/es/contenido/la-misionalidad-de-las-iglesias-evangelicas-en-espana
  3. This is a question I explored in an article in Vista Journal: Jim Memory, ‘Measuring Missional,’ Vista Journal, Vista 12 (January 2013), https://www.europeanmission.redcliffe.ac.uk/latest-articles/measuring-missional.
  4. Jim Memory, ‘How can we measure the effectiveness of church planting?’ in Church Planting in Europe: Connecting to Society, Learning from Experience, ed. Evert Van de Poll and Joanne Appleton (Oregon: Wipf & Stock, 2015); Jim Memory, ‘Movements of the Spirit: Church Planting and the Church in Mission’ in The Church in Mission: Foundations and Global Case Studies, ed. Bertil Ekström (Pasadena: William Carey Library, 2016).
  5. Nota do tradutor: A proposta deste método é principalmente a construção de uma teoria e não somente a codificação de dados. Como regra geral, o pesquisador não deve definir um quadro conceitual que antecede ao início da pesquisa. Essa premissa é definida para garantir que os conceitos possam emergir sem viés conceitual predefinido.
  6. O relatório completo [em inglês].
  7. Nota da Editora: Leia o artigo de Peter Brierley intitulado “O cristianismo no Reino Unido” na edição de setembro/2021 da Análise Global de Lausanne, https://lausanne.org/pt-br/pt-01/o-cristianismo-no-reino-unido.
  8. Nota da Editora: Leia o artigo de Ray Peng intitulado “Transformando a igreja para ser missional”, na edição de novembro/2018 da Análise Global de Lausanne, https://lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2018-11-pt-br/transformando-a-igreja-para-ser-missionaria 

Jim Memory é membro da Equipe de Liderança Internacional da European Christian Mission (ECM). Antes de atuar na liderança de missões, ele e sua esposa, Christine, foram plantadores de igrejas na Espanha de 1994 a 2008. Nos últimos 10 anos, Jim deu aulas de pós-graduação em missão europeia no Redcliffe College e continua a fazê-lo agora no All Nations Christian College (Reino Unido). É o autor de Europe 2021, um recente relatório sobre o contexto da missão na Europa. Também faz parte do grupo de direção para o Lausanne Europe 20/21 Dynamic Gospel-New Europe Gathering and Conversation.