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Por que o jornalismo deveria ser importante para os missionários? Não é sábio evitar jornalistas que gostam de zombar de nós, ou pior ainda, que buscam arruinar o trabalho de décadas se os deixarmos se aproximar dos nossos projetos? Eles não são universalmente ignorantes da verdade e agentes de destruição que fazem o trabalho do diabo? Seu coração não se entristece quando você vê mais um artigo exortando o leitor a entender a mídia, ou a usar a mídia em seu ministério?

Eu mesma experimentei – ou presenciei – todas essas reações! A mídia britânica, que é a que conheço, pode ser uma força incrível para o dano social e político; ela é irresponsável, obcecada com a única manchete política do dia, sem conhecimento, respeito ou veracidade. Pronto, vamos desabafar e nos sentir melhor por descarregar esse peso.

Jornalistas contam histórias sobre o que está acontecendo, e quer saibamos ou não, isso significa histórias que tocam os propósitos de Deus.

E ainda assim, fui chamada por Deus para ser jornalista. Sempre que faço uma meditação profunda em algum momento de crise em minha caminhada com Deus, sou chamada de volta poderosamente à sua palavra original para mim: “Escreva claramente a visão em tabuinhas, para que se leia facilmente” (Hc 2.2). Mesmo minha leitura de hoje, Lucas 8.26-39, onde Jesus diz ao endemoninhado para voltar ao seu povo e compartilhar o que Deus fez por ele, ressoa poderosamente com um jornalista nato. O ex-endemoninhado quer ficar no barco com Jesus. Mas não, Jesus sabe o que ele fará bem: “Volte e conte”! Jornalistas contam histórias sobre o que está acontecendo, e quer saibamos ou não, isso significa histórias que tocam os propósitos de Deus. Porque Deus agiu – e age ainda – todas as histórias são dependentes da história de Deus. E isso torna o chamado do jornalista uma responsabilidade sagrada.

O jornalismo encarna os valores da civilização cristã

Comecei a pensar mais sobre meu chamado que não era reconhecido por nenhuma “ordem da igreja”, quando me vi criando e administrando uma instituição de caridade de mídia, a Lapido Media. O objetivo era ajudar os jornalistas da grande mídia com educação religiosa após os atentados a bomba no metrô de Londres em 2005 por terroristas islâmicos nascidos e criados no Reino Unido. Trabalhei no nível mais alto com repórteres investigativos; com correspondentes da BBC dispostos a aceitar a confiança da instituição de caridade; com tabloides e correspondentes estrangeiros de primeira linha que usaram minhas histórias e aceitei convites para falar das plataformas da Lapido – sem hostilidade ou deslizes. Por que isso aconteceu? Porque jornalistas realmente bons, que trabalham com histórias da luta perene pela liberdade, justiça e verdade, estão fazendo a obra de Deus, quer tenham ou não um selo de cristão. É a graça surpreendente do evangelho e o segredo das origens do jornalismo: o jornalismo encarna as virtudes e os valores que são fruto de dois milênios de civilização.


Inventing the Individual: The Origins of Western Liberalism by Larry Siedentop

Essas virtudes e valores foram recentemente enumerados em 25 capítulos de um livro importante chamado “Inventing the Individual: The Origins of Western Liberalism” (em tradução livre: “Inventando o indivíduo: as origens do liberalismo ocidental”), de Larry Siedentop, professor da Faculdade de Pensamento Político da Universidade de Oxford. Ele faz a prática incrivelmente antiquada de conectar as crenças e as instituições sociais às quais elas deram origem. Ele remonta aos tempos pré-cristãos para proporcionar um forte contraste com as revoluções iniciadas pelo evento de Cristo e com aqueles que o interpretaram. Na Grécia e Roma pré-cristãs, a família era o fundamento da sociedade, não o indivíduo. Uma pessoa não tinha existência independente, exceto como conferida pelos deuses ancestrais, garantida pelo apaziguamento. Sua herança era mantida viva literalmente pelo pai que mantinha a chama de casa acesa. Enquanto o fogo vivia, os ancestrais também viviam, ou seja, os paterfamilias eram um deus em espera com jurisdição absoluta. As mulheres ‘morriam’, em um sentido metafórico, quando eram transferidas da casa de seu pai para a de seu marido: ser transportada além do umbral da porta significava que seu status era como de um cadáver até ser unida aos deuses de seu novo lar pelos homens que ali adoravam. Os escravos e migrantes tinham ainda menos viabilidade. Sua casa e sua terra eram sagradas somente para sua família e você nunca deveria deixá-las. O vínculo era absoluto, e só se rompeu gradualmente através da guerra, e depois a colonização por um poder distante, Roma, quando a cidadania derivada do culto imperial substituiu gradualmente a autoridade da família.

O jornalismo surgiu através de uma longa luta pela verdade pública

Em meio a este rito social irrompeu Cristo e as ideias judaicas de um Deus de amor, consciência e vontade pessoal. A ideia do eu individual, guardado e guiado pela consciência em um relacionamento direto com o Deus Criador acabou levando a mudanças de pensamento que ainda hoje reverberam. Como é que uma jornalista começa a investigar uma história? Somente porque ela tem um senso de si mesma como indivídua, não tendo maiores ou menores direitos do que qualquer outra pessoa na sociedade, mas um direito de autoexpressão protegido pela própria constituição americana, e por outras convenções em todo o mundo ocidental. Ela tem a liberdade de buscar um senso de igualdade universalmente aplicado que era desconhecido antes de Paulo escrever sua obra-prima para as igrejas na Galácia: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus.” (Gl 3:28). Todos estão igualmente sujeitos à graça de Deus, todos são iguais diante de sua lei de amor, todos podem ser motivados a querer o que Ele quer para o bem de todos.

O Movimento Lausanne certamente reconhece o valor dos ministérios da mídia.[1] Conforme o Compromisso da Cidade do Cabo: “Nós nos comprometemos com um novo envolvimento crítico e criativo com a mídia e com a tecnologia, como parte da defesa da verdade de Cristo em nossas culturas das mídias.” (CCC II-A-4).

Nossa declaração do ministério de mídia online afirma: “A mídia domina nosso mundo. Ela faz parte de praticamente todas as sociedades de todos os continentes. É a principal maneira pela qual as notícias e histórias viajam. É, de longe, o canal mais importante para a difusão de ideias. Ela molda todos os aspectos da experiência humana, desde nosso senso de identidade até nossos pontos de vista sobre os maiores desafios que a humanidade enfrenta”.[2]

E prossegue, observando corretamente que “há uma longa história da igreja global usando tecnologias de mídia – do papiro aos livros impressos, passando pelo rádio, televisão e internet.’

O que poderia reforçar, entretanto, é que o jornalismo não se limita a ser um mero passageiro da tecnologia disponível. Ele surgiu através de séculos de luta moral para tornar visível a própria verdade. Podemos nomear e reivindicar corretamente este filho do evangelho, ou como Marvin Olasky o chama agora: este “filho pródigo”.[3]

O jornalismo surgiu primeiro na cristandade

O jornalismo surgiu primeiro na cristandade durante a Renascença e foi amplamente desenvolvido durante a Reforma na Europa continental, e isso não é um acidente. Os países no mundo que possuem mais liberdade de imprensa são, sem exceção, países de base protestante.

O jornalismo surgiu primeiro na cristandade durante a Renascença e foi amplamente desenvolvido durante a Reforma na Europa continental, e isso não é um acidente.

A salvação era importante para as pessoas. Era importante o suficiente para fazê-las querer ler. Em 1490, cinquenta anos após a invenção da imprensa, os florentinos estavam comprando cópias impressas de sermões em números suficientes para ameaçar a elite dominante daquela cidade. O reformador Frei Girolamo Savonarola foi morto pelo Papa em Florença no século XV, mas seus sermões puderam ser divulgados muito além da jurisdição do Papa. Panfletos argumentando os prós e os contras das ideias incandescentes de Lutero vinte anos mais tarde criaram um enorme mercado vernacular para outros materiais impressos, incluindo folhas de notícias. Na Grã-Bretanha, a imprensa surpreendentemente livre do século XVII, obtida através da boa vontade de escritores e pensadores em sofrer tortura e execução contra a opressão de reis e bispos, foi fundamental para a emergência da esfera pública. As forças que trabalharam para influenciar as decisões das autoridades apelaram para o público crítico por meio da imprensa. Essas forças precisavam legitimar suas demandas e a esfera pública lhes deu um novo fórum – o primeiro no mundo. Daí surgiram sistemas parlamentares adotados em todo o mundo.

Jurgen Habermas, o grande estudioso político marxista e único membro não-judeu da Escola de Frankfurt na Alemanha, comemorou em seu 90º ano “saindo do armário” como simpatizante da herança cristã. Isso abalou o mundo acadêmico. Ele disse em uma entrevista:

O universalismo igualitário, do qual surgiram as ideias de liberdade e solidariedade social, de uma conduta autônoma de vida e emancipação, da moralidade individual da consciência, dos direitos humanos e da democracia, é o herdeiro direto da ética judaica da justiça e da ética cristã do amor… Até hoje, não há alternativa para isso. E, à luz dos desafios atuais de uma constelação pós-nacional, continuamos a nos basear na substância desta herança. Tudo o mais é apenas conversa ociosa pós-moderna.[4]

Uma missão para restaurar o ‘jornalismo de interesse público’

Estou nos passos iniciais da minha pesquisa sobre isso no Kirby Laing Centre for Public Theology, em Cambridge. Minhas descobertas têm duas implicações principais para nossas missões e ministérios. Em primeiro lugar, a recuperação cultural. A civilização ocidental se tornou uma ameaça para o mundo, com a corrosão das restrições e disciplinas tradicionais do liberalismo clássico pelo próprio liberalismo. Nossas culturas estão se “auto canibalizando”; estamos “comendo nossos filhos”. Os direitos individuais não podem existir às custas da sociedade. A liberdade não significa nada sem responsabilidade. A liberdade se torna licença sem instituições fortes que a restrinjam e assim por diante. E, o jornalismo perde seu propósito quando se torna inimigo da justiça.

O “jornalismo de interesse público” está morrendo no Reino Unido. Perdemos, inclusive, metade dos nossos jornais. Isso significa um preocupante déficit democrático: os repórteres não estão mais lá para reportar o que acontece nos tribunais locais e as reuniões municipais. Nos Estados Unidos, as coisas estão tão ruins quanto no Reino Unido. As grandes empresas de mídia digital estão consumindo as receitas publicitárias. Até o New York Times tem que escolher entre pedir doações dos assinantes ou morrer. O governo e o Facebook estão financiando novas iniciativas que, inerentemente, destroem o quarto poder. Os jornalistas precisam “distanciar-se socialmente” das grandes empresas que fazem dinheiro que podem comprometer sua liberdade. O coronavírus tem piorado as coisas ainda mais. O que é necessário é um novo despertar, um novo Renascimento, que verá jovens talentosos, motivados e altruístas encontrando novas maneiras de erradicar a corrupção, falar em nome dos oprimidos e exaltar a excelência.

Devemos nos reeducar sobre o jornalismo como um sacramento de tudo o que valorizamos, se quisermos aproveitar esta oportunidade para resgatá-lo, e para a formação do mundo.

A segunda implicação é para a missão fora do “ocidente”. Jornalistas em países com uma imprensa incipiente estão sofrendo seriamente com prisão, tortura e até mesmo a morte em locais como a China e a Turquia, que não possuem a profunda infraestrutura moral que gera uma imprensa livre e, portanto, transformadora. A menos que reaprendamos nossa própria história, não podemos comunicá-la, ou apoiar aqueles que precisam dela. Temos a missão de explicar aos governantes como o desenvolvimento de uma imprensa livre, nas garras dos inimigos da liberdade, foi, todavia, o ganso que botou o ovo d’ouro da democracia e prosperidade, ao criar um “público” que pudesse participar na construção de nações. Como explica Habermas: “A eliminação da instituição da censura marcou uma nova etapa no desenvolvimento da esfera pública. Tornou possível o influxo de argumentos críticos nacionais para a imprensa e permitiu que esta evoluísse para um instrumento com o qual as decisões políticas de ajuda poderiam ser levadas ao novo fórum do público. ’[5]

Devemos nos reeducar sobre o jornalismo como um sacramento de tudo o que valorizamos, se quisermos aproveitar esta oportunidade para resgatá-lo, e para a formação do mundo. De fato, uma organização cristã já está fazendo isso: The Media Project da King’s College em Nova York, apoia uma mídia incipiente em locais difíceis com treinamento, orientação e bolsas de estudo para incentivar o jornalismo de cunho religioso. Serra Leoa, países da antiga Cortina de Ferro, e até mesmo a China, onde missionários da Sociedade Missionária de Londres fundaram a primeira imprensa em mandarim em 1815 para servir a todos os chineses, se beneficiam deste trabalho inspirador.[6]

Esta é nossa herança como cristãos, e devemos louvar a Deus por ela.

Notas

    1. Editor’s note: See article by Lars Dahle, entitled ‘Media Engagement: a global missiological task’, in January 2014 issue of Lausanne Global Analysis, https://lausanne.org/content/lga/2014-01/media-engagement-a-global-missiological-task.
    2. https://lausanne.org/pt-br/redes-pt-br/redes-tematicas-pt-br/engajamento-em-midia.
    3. Marvyn Olasky and Warren Cole, Prodigal Press: Confronting the Anti-Christian Bias of the American News Media, rev. ed., (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2013).
    4. Jurgen Habermas, ‘A Conversation about God and the World’ from Part VII ‘Jerusalem, Athens, and Rome’, in Time of Transitions (London: Polity, 1999), 151.
    5. Jurgen Habermas, The Structural Transformation of the Public Sphere (Cambridge: Polity Press, 1989), 58.
    6. China Monthly Magazine, printed with traditional Chinese woodblock to serve the Chinese population is widely accepted as the beginning of modern Chinese journalism. See my chapter ‘From Prophetic Press to Fake News’, in V Mangalwadi, This Book Changed Everything (Landour: Nivedit Good Books, 2019), 256f.

Crédito das fotos

Foto de  Felicia Buitenwerf no Unsplash

Foto de  Glenn Carstens-Peters no Unsplash

Jenny Taylor é escritora, jornalista e consultora que já trabalhou em diversas empresas de mídia, incluindo o The Independent, The Times, The Spectator e a BBC. Ela é a consultora de jornalismo, mídia e comunicações no Kirby Laing Centre for Public Theology, em Cambridge. Ela trabalhou e viajou com missões por dez anos antes de criar o Lapido Media, Centro de Educação Religiosa em Jornalismo. Ela recebeu seu doutorado sobre Islamismo e Secularização na Grã-Bretanha pela School of Oriental and African Studies em Londres, em 2001.

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