Global Analysis

Governança de IA na casa de Deus

Diretrizes para uma tecnologia ética na igreja

AI and Faith out 2025

O número crescente de sistemas de gestão de igrejas com IA tem despertado atenção e reacendido preocupações em torno do uso da inteligência artificial na igreja, especialmente no que diz respeito às análises de dados dos membros alimentadas por IA.1 Essas preocupações fomentam ainda mais a polarização de perspectivas a respeito do uso da IA na igreja. Alguns, que consideram a IA uma “ameaça idólatra”, veem esses avanços como confirmação dos males da inteligência artificial, ignorando, porém, os benefícios que os fiéis já experimentaram e as imensas oportunidades futuras trazidas pelas crescentes capacidades da IA. Aqueles que a veem como uma “ferramenta providencial”, argumentam que os críticos exageram os aspectos negativos e apresentam cenários hipotéticos extremos em torno dessas mesmas oportunidades. Em vez de alimentar essa polarização, nós, da AI and Faith e do promissor AI Trust and Accountability Consortium (AITAC), buscamos promover um caminho equilibrado e sábio, que permita o uso eficaz e biblicamente ético dessas crescentes capacidades da inteligência artificial.

Essas tendências destacam a necessidade cada vez maior da estrutura de certificação e responsabilização proposta pelo AITAC. Em vez de rejeitar as inovações benéficas da IA ou minimizar as preocupações com as práticas atuais, o AITAC, atualmente em desenvolvimento, oferece um caminho equilibrado que preserva os benefícios das ferramentas ministeriais com IA, ao mesmo tempo em que estabelece, monitora e certifica o uso de salvaguardas éticas cristãs essenciais.

O desafio: inovação sem responsabilidade

Uma das preocupações mais inquietantes é que as igrejas e seus líderes bem-intencionados aplicam as tecnologias que evoluíram para sistemas analíticos sofisticados sem o nível necessário de transparência ou consentimento significativo por parte dos fiéis. Dados coletados para um determinado propósito podem ser explorados e utilizados para fins não autorizados nem previstos originalmente pelo usuário.

as igrejas e seus líderes bem-intencionados aplicam as tecnologias que evoluíram para sistemas analíticos sofisticados sem o nível necessário de transparência ou consentimento significativo por parte dos fiéis.

Os potentes mecanismos de dados em muitas aplicações de IA voltadas à religião coletam e armazenam grandes quantidades de informações dos membros das igrejas que as utilizam. Além de reunir volumes massivos de dados, os algoritmos dessas aplicações – e os modelos de software em que se baseiam – analisam esses dados de maneiras raramente compreendidas pelos usuários, e às vezes nem mesmo pelos próprios desenvolvedores. Por exemplo, informações fornecidas em pedidos de oração podem ser interpretadas por alguns sistemas de IA como indicadores de saúde mental, o que surpreenderia muitos usuários que apenas buscavam intercessores.

O potencial de reunir todos esses dados em uma plataforma integrada, combinada com outras informações públicas, oferece aos líderes a oportunidade de direcionar ações para o cuidado pastoral proativo ou para o uso comercial. Grande parte disso pode ocorrer sem o conhecimento dos fiéis ou sem o seu consentimento expresso quanto à forma como seus dados são utilizados.

É importante destacar que não se trata de afirmar que a tecnologia é inerentemente má, mas de reconhecer que, por ser tão poderosa, ela pode – sem os devidos freios e contrapesos – ser utilizada com estruturas éticas e salvaguardas insuficientes.

Resposta do AITAC: adoção de estruturas éticas sólidas, em vez de rejeição

Embora vários aspectos devam ser analisados e abordados, destacamos dois em particular:

Certificação baseada em padrões (em vez de proibição)

Uma abordagem seria optar por nunca usar tecnologia de IA no contexto da igreja. Consideramos essa medida desnecessária e contraproducente; o que propomos é utilizar a framework TRUST, fundamentada na Bíblia2 para incorporar abordagens éticas cristãs juntamente com a aplicação de padrões aceitos em todo o mundo, como os de design eticamente alinhado ao IEEE3 e a série de padrões P7000,4 integrados ao processo CertifAIEd™, como forma de fornecer e certificar as salvaguardas necessárias para essas organizações. Os padrões técnicos garantirão governança de dados robusta, proteção adequada de privacidade e medidas de segurança essenciais; o referencial ético reforça os princípios cristãos de dignidade humana, transparência e boa administração. A esses elementos, adicionamos mecanismos de prestação de contas, como avaliações independentes e monitoramento contínuo.

A integração de todos esses elementos dará suporte à inovação responsável, que serve ao desenvolvimento humano e às iniciativas missionárias cristãs, ao mesmo tempo em que evita a exploração e a manipulação.

Transparência como principal requisito

Amar e honrar uns aos outros é um princípio bíblico fundamental. Isso obriga os líderes da igreja a administrar suas organizações e sistemas de forma totalmente transparente, permitindo que os fiéis e usuários saibam exatamente como seus dados são usados e tenham a opção de consentir ou não com o fornecimento de seus dados ou com a análise algorítmica de suas informações. A implementação disso requer da organização e seus provedores, no mínimo, divulgação clara das práticas de coleta de dados, explicação em linguagem acessível sobre o uso das informações, processo significativo de consentimento e relatórios transparentes e regulares sobre todo o uso de ferramentas de IA que envolvam análise de dados.

Mudanças necessárias para os provedores de tecnologia da igreja

Algumas ações imediatas devem ser consideradas: Primeiro, é necessária uma avaliação independente das práticas atuais, comparando-as com padrões internacionais aceitos e emergentes sobre o uso ético da IA. Isso poderia ser feito por meio do AITAC ou de outras organizações independentes semelhantes. Propomos uma abordagem colaborativa semelhante à do Evangelical Council for Financial Accountability (ECFA) 5 como a melhor forma de maximizar a confiança e a aceitação e de avançar com a velocidade e a força exigidas por esse mercado em expansão. Em segundo lugar, é necessário revisar as práticas de consentimento e transparência, garantindo que sejam completas e adequadas. Por fim, os provedores de tecnologia devem avaliar as salvaguardas voltadas a populações vulneráveis e garantir a coleta, proteção e uso adequados de informações relacionadas à saúde, em conformidade com as diretrizes federais norte-americanas da HIPAA e outros regulamentos similares de proteção.

As mudanças na governança de dados devem incluir a coleta apenas das informações necessárias para os propósitos originais do sistema, restringindo seu uso para os fins explicitamente declarados para os quais foi concedido consentimento. É essencial a implementação de mecanismos de supervisão por meio, por exemplo, de conselhos consultivos, bem como a ampliação dos direitos dos usuários e o acesso aos seus dados para revisão, correção e exclusão.

As mudanças na governança de dados devem incluir a coleta apenas das informações necessárias para os propósitos originais do sistema, restringindo seu uso para os fins explicitamente declarados para os quais foi concedido consentimento.

As mudanças na governança de dados devem incluir a coleta apenas das informações necessárias para os propósitos originais do sistema, restringindo seu uso para os fins explicitamente declarados para os quais foi concedido consentimento. É essencial a implementação de mecanismos de supervisão por meio, por exemplo, de conselhos consultivos, bem como a ampliação dos direitos dos usuários e o acesso aos seus dados para revisão, correção e exclusão.

Um caminho equilibrado, mas urgente, a seguir

Não defendemos a rejeição das ferramentas de IA, nem a oposição ao seu uso na igreja e em seus ministérios, tampouco regras excessivamente restritivas; defendemos, sim, a implementação urgente de salvaguardas éticas fundamentadas nas Escrituras, suficientes para orientar o uso responsável dessas ferramentas extremamente capazes. É incontestável que todos nós precisamos de mais transparência, responsabilidade e comprometimento com a aplicação de padrões e acreditações internacionais.

defendemos, sim, a implementação urgente de salvaguardas éticas fundamentadas nas Escrituras, suficientes para orientar o uso responsável dessas ferramentas extremamente capazes.

O uso da IA e da análise de dados já está amplamente presente na igreja. A questão é: continuaremos a utilizá-las de uma forma que honre a Deus e sirva às pessoas que ele colocou sob nossos cuidados?

Acreditamos que não se trata de optar entre uma tecnologia poderosa e a prática da ética; em vez disso, buscamos mostrar um caminho melhor que rejeite essa escolha desnecessária. Por meio da colaboração, da certificação independente e da supervisão responsável contínua, podemos ter uma tecnologia ministerial que seja não apenas poderosa, mas também firmada e comprometida com os propósitos sublimes do Reino de Deus.

Chegou a hora de agir!

Notas finais

  1. For example, globenewswire.com/news-release/2025/08/13/3132640/0/en/Pushpay-Announces-its-Approach-to-Artificial-Intelligence-and-Unveils-AI-Fueled-Product-Enhancements-at-its-Customer-Connect-Event.html, thestudioc.org/analytics/, cdn.triumph.tech/resources/unlocking-ai-powered-insights-on-person-profiles-in-rockrms, and kingdommetrics.com/, and ministryai.ai/.
  2. AI, Ethics, and Trust: A Biblically-Grounded Christian Position
  3. standards.ieee.org/wp-content/uploads/import/documents/other/ead1e.pdf
  4. standards.ieee.org/industry-connections/activities/ieee-global-initiative/ 
  5. ecfa.org/

Autoria (bio)

AI and Faith

A AI and Faith é uma comunidade diversificada composta por especialistas em negócios, ética, teologia e tecnologia, provenientes de uma ampla variedade de instituições empresariais, religiosas e acadêmicas. Sua missão é capacitar e encorajar pessoas de fé a levar sabedoria e valores comprovados e alicerçados na fé para a discussão sobre a ética na IA.
Ela incentiva, conecta e capacita criadores de tecnologia, pesquisadores acadêmicos, especialistas em ética, teólogos e outros profissionais da área a se envolver nas questões morais e éticas relacionadas à inteligência artificial e tecnologias afins.