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O mundo inteiro está realmente se tornando mais saudável?

A Gapminder Foundation[1] e a Our World in Data,[2] entre outras organizações, têm descrito de forma vívida as melhorias na saúde global desde a década de 1960, em aspectos como a redução da mortalidade infantil,[3] o aumento da expectativa de vida e o desenvolvimento. Muitas dessas melhorias são fruto de avanços econômicos, educacionais e tecnológicos, particularmente após o declínio do colonialismo no Mundo Majoritário. A “Declaração de Alma-Ata” (1978) da Organização Mundial da Saúde (OMS),[4] seus Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (2000)[5] e seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (2015)[6] sistematizaram a melhoria da saúde e do desenvolvimento como alvos para os governos nacionais.

No entanto, a história não contada por trás dessas melhorias inclui as iniciativas dos missionários que atuaram na área de assistência e cuidados com a saúde e o efeito da introdução da cosmovisão bíblica na definição de bem-estar humano. Esses elementos têm sido fundamentais para a melhoria da saúde no mundo,[7] mas o principal deles costuma ser omitido da literatura secular sobre saúde global.

Como discípulos, nossa visão das tendências globais de saúde deve incluir não apenas a saúde física e os indicadores de desenvolvimento, mas também a saúde espiritual da ethne [grupos etnolinguísticos comumente conhecidos como “grupos de povos”]. Num importante artigo publicado em 2018,[8] R. W. Lewis explicou o conceito de grupos de povos de fronteira (FPGs),[9] um amplo redirecionamento do conceito de grupos de povos não alcançados, que durante 35 anos serviu de guia para as missões de fronteira[10]. Em poucas palavras, um FPG é um grupo de povos que não conta com nenhum movimento identificado em direção a Cristo e praticamente sem discípulos conhecidos.

Métodos

Como discípulos de Jesus, cumprimos a sua missão através do seu paradigma, que envolve a pessoa toda,[11] a família toda[12] e o paradigma de todas as etnias. A análise da intersecção entre saúde física, espiritual, emocional, mental e social na ethne é a base para a adoção do paradigma de Jesus. O foco dessa análise estará na intersecção entre saúde e desenvolvimento físico e a saúde espiritual, numa escala macro, no nível do grupo de povos.

O filtro “People Group” [grupo de povos] do Joshua Project[13] foi usado para criar duas listas: todos os que são povos de fronteira (FPGs) e todos os que não são povos de fronteira (Non-FPGs). O Índice de Desenvolvimento Humano ou HDI (gráfico 1),[14] a Taxa de Mortalidade de Menores de Cinco anos ou U5M (gráfico 2)[15] e a Taxa de Mortalidade Materna ou MMR (gráfico 3)[16] foram os indicadores de saúde e desenvolvimento escolhidos. Para cada grupo de povos, o país listado pelo Joshua Project era avaliado conforme os indicadores HDI, U5M e MMR correspondentes. Em cada indicador, um conjunto de dados foi identificado para cada uma das listas de FPG e não FPG. Estes foram analisados e identificados por um software de estatísticas segundo cada um dos três indicadores.[17]

Resultado e Análise

embora os FPGs sejam mais propensos a viver em países onde há defasagem no desenvolvimento e na saúde, assim como as iniciativas dos trabalhadores cristãos foram omitidas da literatura secular sobre a saúde global, a saúde física e o desenvolvimento são frequentemente omitidos da pesquisa missiológica que avalia o progresso da evangelização global.

O HDI é significativamente mais baixo e o U5M é significativamente mais elevado no grupo FPG. Por serem indicadores segundo o nível do país e não do grupo de povos, pode-se afirmar que os FPGs têm maior probabilidade de viver em países com pior HDI e U5M.

A TMM é estatisticamente igual entre os grupos FPG e os grupos não FPG. Isso talvez explique a taxa continuamente elevada em muitos países da África Subsaariana, onde, embora muitos grupos de povos sigam a Cristo, a falta de recursos, a corrupção e a instabilidade continuem a dificultar os cuidados com a saúde perinatal. Pode também refletir as iniciativas na Índia e em Bangladesh, que têm um grande número de FPGs, mas, desde 2014, reduziram a mortalidade materna para próximo ou abaixo da média mundial.[18]

Vale notar que os valores medianos para cada um desses indicadores de saúde entre os FPGs são os mesmos que os da Índia, que tem, de longe, o maior número de FPGs. Entre todos os FPGs, 72% vivem no Sul da Ásia; 36% na Índia.[19]

Esses dados podem não mostrar uma relação causal entre a situação de fronteira de cada grupo de povos e a saúde ou o desenvolvimento, mas podem indicar uma relação no nível do país. Outra limitação é que os dados de desenvolvimento e de saúde estão disponíveis apenas a nível nacional, o que significa que todos os grupos de povos num país apresentam um mesmo indicador de saúde, o que não representa completamente uma realidade mais complexa.

A globalização e os deslocamentos na diáspora são realidades importantes do mundo de hoje, e o Joshua Project reflete isso ao contar cada ocorrência de determinado grupo de povos em um país como um grupo de povos separado. A desvantagem disso na comparação dos dados do Joshua Project com os dados a nível do país é que grupos comparativamente pequenos da diáspora do Mundo Majoritário, que vivem hoje em países mais ricos do Ocidente ou do Oriente Médio, podem ou não experimentar o verdadeiro nível de saúde e desenvolvimento segundo o qual seu novo país de residência é classificado nos relatórios da OMS e da UNICEF. Se esses dados fossem analisados por população ou por condição de povos nativos, é possível que o contraste nos dados fosse ainda mais acentuado.

Apesar das limitações, esses dados revelam outra história não contada:

embora os FPGs sejam mais propensos a viver em países onde há defasagem no desenvolvimento e na saúde, assim como as iniciativas dos trabalhadores cristãos foram omitidas da literatura secular sobre a saúde global, a saúde física e o desenvolvimento são frequentemente omitidos da pesquisa missiológica que avalia o progresso da evangelização global.

O evangelho do reino de Jesus e a oração para que a vontade de Deus seja feita assim na terra como no céu tornam crucial que nossos esforços para alcançar os FPGs restantes associem a saúde e o desenvolvimento ao evangelismo e o discipulado, e que a nossa monitoração do progresso avalie as métricas de saúde e desenvolvimento além de discípulos e igrejas.

O que esperar

Grande parte do progresso maciço na saúde física global nos últimos cinquenta anos deve-se aos serviços de saúde governamentais. Em muitos países com um grande número de FPGs, particularmente na China e no Sul da Ásia, a maioria dos serviços de saúde é prestada pelo governo. Esse progresso provavelmente continuará, embora seja particularmente suscetível a pandemias, guerras e crises econômicas.

As missões tradicionais com enfoque na saúde muitas vezes ainda se concentram nas áreas mais carentes da saúde física. Isso, certamente, glorifica a Deus, exalta o nome e o amor de Jesus e pode abrir portas para o evangelho. Às vezes, contudo, essa ênfase na necessidade física acontece em detrimento de áreas e povos com grandes necessidades espirituais – os FPGs.

As missões tradicionais com enfoque na saúde também se concentraram frequentemente em soluções técnicas e institucionais, como hospitais, clínicas e grandes organizações, numa tentativa de enfrentar desafios complexos de saúde global. Essas soluções são muitas vezes caras, muito dependentes da tecnologia e do envolvimento estrangeiro, bem como são difíceis ou impossíveis de serem reproduzidas. Isso tem dificultado a entrada nos FPGs e a implementação de mudanças de formas que sejam verdadeiramente replicáveis e sustentáveis pelos discípulos locais. Se essas tendências persistirem, as organizações missionárias voltadas à saúde continuarão a relegar o cuidado oferecido aos vulneráveis e desemparados aos serviços de saúde governamentais seculares, que muitas vezes não têm lugar para o paradigma de Jesus e seu amor.

No contexto da ascensão da “prática de movimento”[20] na obra missionária, tem havido uma tendência encorajadora nos últimos quinze anos no sentido de alcançar a integralidade da pessoa, da família e da comunidade. Uma parte importante dessas correntes inclui modelar a evangelização física, tangível e sustentável e a oração direta pelas necessidades físicas dos que estão sendo evangelizados e dos discípulos.[21]

A corrente da missão integral está consolidando outros aspectos da evangelização que antes estavam separados.[22] À medida que a comunidade missionária global continua a abraçar a “prática de movimento” e a missão integral, também persistirá a tendência promissora da integração replicável do espiritual e do físico.

O que devemos fazer?

As organizações missionárias voltadas para a assistência e cuidados com a saúde devem procurar nichos em que o sistema de saúde governamental seja carente e persistir na adoção de formas de evangelização encarnacional para alcançar as famílias dos FPGs, particularmente no Sul da Ásia. Isso deve ser feito conforme o exemplo de Jesus, de forma replicável e verdadeiramente sustentável, para complementar e contribuir com as entidades governamentais de saúde existentes, em vez de competir com elas.

Perceber que os FPGs costumam ter maior probabilidade de viver em contextos menos desenvolvidos – com saúde física e desenvolvimento inferiores – exige que a evangelização dos FPGs inclua esses aspectos.

Isso não significa que há necessidade de criar mais ONGs de desenvolvimento ou construir mais hospitais ou clínicas nessas áreas. Essas formas de desenvolvimento e de evangelização com enfoque na saúde costumam ser difíceis de administrar, manter e replicar.

Muitos dos países com mais FPGs têm sistemas de saúde governamentais relativamente desenvolvidos. As organizações missionárias voltadas para a assistência e cuidados com a saúde devem procurar nichos em que o sistema de saúde governamental seja carente e persistir na adoção de formas de evangelização encarnacional para alcançar as famílias dos FPGs, particularmente no Sul da Ásia. Isso deve ser feito conforme o exemplo de Jesus, de forma replicável e verdadeiramente sustentável, para complementar e contribuir com as entidades governamentais de saúde existentes, em vez de competir com elas. Em certa cidade do Sahel, com 200 mil habitantes, nós e nossa equipe acrescentamos histórias bíblicas, oração por cura e cuidados de saúde primários e relacionais à educação sanitária básica oferecida nos lares. Após quatro anos desse tipo de trabalho com uma família extensa específica, nasceu uma pequena igreja de discípulos batizados em um grupo de povos de fronteira onde antes não havia nenhuma igreja. Esses discípulos analfabetos agora reproduzem pela oralidade os mesmos estudos bíblicos e aprendizado sobre saúde em vários outros locais. Independentemente do seu nível de formação ou educação, ou mesmo do contexto, os discípulos podem ser mobilizados para cuidar dos seus próximos de formas tangíveis.

Esses esforços devem seguir os mesmos “princípios de movimento” que Deus tem usado para promover movimentos de discípulos em todo o mundo. Dessa forma, garante-se que o cuidado com o desenvolvimento e a saúde física prossiga de forma transformacional como parte do evangelho do reino anunciado para a integralidade da pessoa e seja reproduzido por gerações futuras de discípulos leigos.[23]

Os grupos ou igrejas de discípulos nas proximidades que já existem devem tornar-se centros de desenvolvimento e saúde, não necessariamente através da contratação de profissionais de saúde ou da adição de dispensários, mas replicando o paradigma de Jesus de entrelaçar na vida diária dos discípulos a saúde espiritual, física, mental, emocional e social, em um nível que os discípulos locais possam reproduzir e manter. Isso exigirá que os discípulos redescubram o tema do shalom no Antigo Testamento e o paradigma de Jesus de cuidar da integralidade da pessoa e da família, e depois que implementem esses conceitos como uma parte crucial do evangelho do reino para os FPGs.

A última história não contada será aquela expressa pelo próprio Jesus. Antes de receber o louvor de toda a ethne, ele contará naquele grande encontro como seus discípulos cuidaram das necessidades dos vulneráveis, muitos dos quais se tornaram seus irmãos e irmãs naquele encontro de louvor.

Notas finais

  1. GapMinder, https://www.gapminder.org/tools.
  2. Our World in Data, https://ourworldindata.org.
  3. Hans Rosling, ‘The good news of the decade? We’re winning the war against child mortality’, TedX Change September 2010, https://www.ted.com/talks/hans_rosling_the_good_news_of_the_decade_we_re_winning_the_war_against_child_mortality.
  4. Report of the International Conference on Primary Health Care, (September 1978)’, Organização Mundial da Saúde e Fundo das Nações Unidas para a Infância, https://www.unicef.org/media/85611/file/Alma-Ata-conference-1978-report.pdf.
  5. ‘Millennium Development Goals (MDGs), 19 February 2018’, Organização Mundial da Saúde, accessed 9 October 2023, https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/millennium-development-goals-(mdgs).
  6. ‘The Global Health Observatory’, World Health Organization, accessed 9 October 2023, https://www.who.int/data/gho/data/themes/world-health-statistics.
  7. Gary Bandy and Alan Crouch Ư ‎et al, Building from Common Foundations: The World Health Organization and Faith-Based Organizations in Primary Healthcare, World Health Organization (2008): 5, 9-12.
  8. RW Lewis, ‘Losing Sight of the Frontier Mission Task’, International Journal of Frontier Missiology 35, no. 1 (Spring 2018): 6.
  9. RW Lewis, ‘Clarifying the Remaining Frontier Mission Task’, International Journal of Frontier Missiology 35, no. 4 (Winter 2018): 155-168.
  10. Dave Datema, ‘Defining ‘Unreached’: A Short History’, International Journal of Frontier Missiology 33, no. 2 (Summer 2016): 45-71.
  11. Jesus mantinha o equilíbrio contínuo entre a abordagem do estado físico e espiritual, bem como o emocional e social, daqueles com quem ele interagia. Veja Mt 6.10-13, Mc 5, Lc 5.17-26, Lc 8.43-48, Lc 10.8-9.
  12. T&B Lewis, ‘As For Me and My House: The Family in the Purposes of God’, Mission Frontiers 34, no. 2 (March-April 2012): 6-10.
  13. ‘People Group Filter’, Joshua Project, accessed 9 October 2023, https://www.joshuaproject.net/filter.
  14. ‘Human Development Report’, United Nations Development Programme, accessed 9 October 2023, https://hdr.undp.org/data-center/human-development-index#/indicies/HDI. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) inclui a expectativa de vida no nascimento, a média de escolaridade dos adultos e a escolaridade esperada, e a renda nacional bruta per capita. Um IDH mais elevado significa melhor desenvolvimento. Este relatório apresenta os dados de 2021 como os mais recentes disponíveis.
  15. ‘Under-Five Mortality Data, January 2023’, UNICEF, accessed 9 October 2023, https://data.unicef.org/resources/dataset/under-five-mortality-data/. A Taxa de Mortalidade de Menores de Cinco Anos (U5M) é a probabilidade de um recém-nascido morrer antes de chegar aos 5 anos de idade, expressa por 1.000 nativivos. Uma U5M mais alta significa mais mortes. Este relatório apresenta os dados de 2021 como os mais recentes disponíveis.
  16. ‘Trends in Estimates of Maternal Mortality Ratio (MMR) and Lifetime Risk of Maternal Death, 2000-2020, May 2023’, UNICEF, accessed 9 October 2023, https://data.unicef.org/topic/maternal-health/maternal-mortality/#data. A Taxa de Morte Materna (RMM) é expressa como mortes maternas durante a gravidez ou no período de 42 dias após o parto, a cada 100 mil nativivos. Uma RMM mais alta significa mais mortes. Este relatório apresenta os dados de 2020 como os mais recentes disponíveis.
  17. ‘Statistics Online’, Statistics Kingdom, accessed 9 October 2023, https://www.statskingdom.com. O teste de Mann-Whitney (U) para duas amostras foi usado porque esses conjuntos de dados têm distribuições anormais e altas contagens de valores discrepantes. Nos gráficos tipo diagrama de caixa, as linhas horizontais tracejadas representam a média, as linhas horizontais sólidas representam a mediana, a linha vertical representa a faixa completa de valores e a caixa representa o percentil 25-75.
  18. Max Roser and Hannah Ritchie, ‘Maternal Mortality’, Our World in Data, accessed 9 October 2023, https://ourworldindata.org/maternal-mortality
  19. RW Lewis, ‘Clarifying the Remaining Frontier Mission Task’, International Journal of Frontier Missiology 35, no. 4 (Winter 2018): 160-162.
  20. A “prática de movimento” aqui inclui as várias correntes de prática missionária que buscam movimentos de povos para Cristo: também referidos como movimentos de povos, movimentos em direção a Cristo, movimentos de plantação de igrejas, movimentos de fazer discípulos, comunidades vibrantes de seguidores de Jesus etc.
  21. David Trousdale, Miraculous Movements (Nashville: Thomas Nelson, 2012), 58-59, 83-88, 184, 188-189.
  22. David Greenlee, Mark Galpin, and Paul Bendor-Samuel, eds. Undivided Witness: Jesus Followers, Community Development, and Least-Reached Communities (Oxford: Regnum, 2020).
  23. Andrea C Waldorf, ‘Community Development and the Formation of Vibrant Communities of Jesus Followers: Shared Principles of Excellence’, International Journal of Frontier Missiology 37, no. 2 (Summer 2020): 93-98.

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Jason Lee (pseudônimo) é discípulo de Jesus e médico. Ele, sua esposa, família e equipe serviram durante oito anos entre grupos muçulmanos de fronteira no Sahel africano, concentrando-se em movimentos de discípulos, movimentos transformacionais de educação sanitária de base e cuidados de saúde primários e relacionais oferecidos nos lares. Hoje ele é o codiretor de Saúde para Todas as Nações, um ministério da Frontier Ventures. Atua também como Catalisador Internacional de Saúde da maior organização de envio de missões voltada exclusivamente para muçulmanos.