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A violência de gênero na sociedade

Na última década, o problema da violência de gênero ganhou grande visibilidade através da mídia e dos diversos movimentos que surgiram para confrontar e repudiar esses comportamentos abusivos. Como sociedade, muitas vezes “mascaramos” diferentes formas de violência e as encaramos com naturalidade.

Muitas vezes agravamos a violência de gênero especialmente contra as mulheres.

Algumas pessoas podem até manifestar seu apoio a campanhas de prevenção da violência de gênero, mas no dia a dia, suas ações podem contradizer seu discurso. Muitas vezes, seja de forma consciente ou inconsciente, agravamos a violência de gênero por meio da linguagem, de decisões ou omissões, especialmente contra as mulheres, em sociedades com predomínio de uma cultura patriarcal. Isso fica evidente nas altas taxas de feminicídio em todo o mundo.

Desde o nascimento até a idade adulta, somos bombardeados por incontáveis mensagens sobre como uma menina e um menino devem ser e quais papéis cada um deles deve desempenhar, respectivamente, ao atingir a idade adulta. As mulheres estão sendo estereotipadas como sensíveis, submissas, dependentes e fracas, com capacidade inferior à dos homens para realizar tarefas que exigem liderança. Afirma-se que “a mulher é um ser inferior” e ela mesma é responsabilizada pela violência que sofre com frases como “a culpa é dela” ou “ela deve ter feito algo”.

Dessa forma, como sociedade, estamos naturalizando a violência por meio da linguagem. As palavras são tão importantes! O que sai de nossa boca transmite mensagens que afetam a vida do outro, pois são palavras que edificam, ajudam, incentivam, desafiam, mas também ferem, desanimam e destroem. Cada palavra que dizemos influencia a vida do outro, para melhor ou para pior. Não é apenas o que dizemos que impacta a vida das pessoas ao nosso redor, especialmente aquelas sobre as quais temos influência, mas também a linguagem que usamos para comunicar o que queremos dizer.

A violência de gênero na igreja

As igrejas evangélicas, sendo parte da sociedade, não estão isentas do problema social da violência de gênero. No que diz respeito à existência dessa questão nas comunidades de fé, há duas áreas que considero fundamentais. Por um lado, não estamos isentos, porque os membros da igreja podem sofrer esse tipo de violência em casa, no trabalho e em situações diversas do seu dia a dia. Por outro lado, no entanto, esse problema também está presente no discurso dos líderes das comunidades de fé.

Algumas comunidades de fé, não necessariamente de forma intencional, agem como facilitadoras da violência.

Algumas comunidades de fé, não necessariamente de forma intencional, agem como facilitadoras da violência. O patriarcado é um discurso ideológico predominante em algumas igrejas evangélicas. As mulheres devem se “conformar” com o tratamento dos homens e se submeter à sua autoridade. Tais atitudes são justificadas como sendo bíblicas e de acordo com a vontade de Deus.

Como as igrejas se tornam facilitadoras da violência contra as mulheres?

Primeiro, por meio de um sistema de hierarquias em que não há igualdade nos papéis exercidos por homens e mulheres. Os homens são colocados em posições de autoridade e de tomada de decisão, enquanto as mulheres que desejam exercer as mesmas funções não têm permissão para fazê-lo. Por exemplo, ao não permitir que as mulheres preguem ou liderem, presumimos uma certa “superioridade” do homem que, então, mantém essa postura em casa. Desse modo, podemos encontrar papéis estereotipados de mulheres dentro da igreja, como professoras de escola dominical, coordenadoras de grupos de oração ou cozinheiras.[1]

Em segundo lugar, a violência de gênero pode, em alguns casos, ser encorajada por meio da aplicação de certos textos de maneira direta, sem levar em consideração a estrutura cultural em que foram transmitidos e as maneiras pelas quais isso afeta sua implementação. Por exemplo, a afirmação de que o homem é o “cabeça da mulher” pode servir, em uma cultura patriarcal, para legitimar a superioridade do homem sobre as mulheres. Essa certamente não era a intenção do texto original. Uma interpretação literal do texto nem sempre é fiel à mensagem que o texto pretende transmitir, e corremos o risco de estabelecer dogmas que afetam a dignidade humana.[2]

Terceiro, a desinformação nas igrejas a respeito da violência de gênero facilita a própria violência. A ausência de debate e estudo aprofundados desse problema social pode levar a outras formas de violência, muitas delas possivelmente bastante sutis, porém, mesmo assim, atentando contra a dignidade humana.

Buscar ajuda profissional de pessoas especializadas no assunto e tomar as medidas necessárias para preservar a vida e a dignidade daqueles que são vítimas de violência.

Por último, a violência pode ser incentivada pela espiritualização de situações que requerem ajuda e tratamento urgentes. Acredita-se que o agressor deixa de ser violento de forma sobrenatural apenas pelo poder da oração. Sem dúvida, Deus pode mudar pessoas de forma completa e milagrosa e reverter situações complexas, mas enquanto se ora, é necessário também agir. Ou seja, buscar ajuda profissional de pessoas especializadas no assunto e tomar as medidas necessárias para preservar a vida e a dignidade daqueles que são vítimas de violência.

A vida das pessoas é condicionada, entre outras coisas, pelos conhecimentos adquiridos e pelas informações recebidas ao longo da vida. O aprendizado obtido nas diferentes áreas de desenvolvimento e crescimento é posteriormente traduzido nas nossas atitudes, no nosso modo de pensar e agir. O que aprendemos e vivenciamos na comunidade eclesiástica à qual pertencemos certamente contribui para a nossa formação como pessoas de fé. O ensinamento transmitido por alguns pastores e dirigentes é reproduzido no discurso dos que fazem parte daquela comunidade, tanto daqueles que se colocam em posição de superioridade, quanto daqueles que o aceitam de forma submissa.

É um desafio para os que se propõem a oferecer cuidados pastorais que eles sejam capazes de ajudar a impedir a violência de gênero, de detectá-la a tempo, de acompanhar quem a enfrenta, sendo agentes da paz e não facilitadores dessa violência.

O que podemos fazer como igreja para evitar a violência de gênero?

Eu gostaria de destacar três passos principais:

Primeiro, transformar o entendimento no nível da liderança.[3]

Muitos dos que estão no comando de igrejas – pastores, líderes de ministério e outros – pensam que tudo acontece conforme seu entendimento e que, portanto, assim deve permanecer. O problema deve ser trabalhado desde a raiz, ou seja, transformando o entendimento, para então mudar comportamentos e discursos. Uma maneira de conseguir isso é por meio do treinamento holístico de liderança, [4] que proporciona o entendimento das questões de justiça social relacionadas ao gênero a partir da perspectiva de profissionais da área.

Segundo, refletir a igualdade de forma prática na rotina diária da igreja.

Ser parte de uma igreja na qual a igualdade nas relações homem-mulher é promovida, por exemplo, com a presença de homens e mulheres em posições de autoridade, tomando decisões e assumindo a liderança pastoral, abrirá caminho para que a violência não seja vista como algo natural.

Terceiro, rever a existência de questões relativas ao gênero nas celebrações litúrgicas.

As questões relacionadas à violência de gênero devem ser discutidas abertamente e ensinadas na rotina diária da vida eclesiástica. É essencial estar informado, entender quais são os problemas e os diferentes tipos de comportamento violento, bem como fornecer ferramentas práticas de detecção, políticas de coibição para que isso não seja encarado com naturalidade.

Reflexão final

A dignidade humana deve estar acima de qualquer mandato religioso. Se pudermos demonstrar isso de maneiras concretas nas comunidades de fé, certamente seremos agentes da paz e criaremos um espaço no qual mulheres e homens possam se sentir seguros, amados e respeitados.

A dignidade humana deve estar acima de qualquer mandato religioso.

Como explica Elsa Tamez, a Bíblia, ao ser interpretada de forma androcêntrica e patriarcal, tem sido uma fonte de legitimidade para a marginalização das mulheres na igreja e na teologia.[5] No entanto, percebemos também que a leitura bíblica, pela perspectiva dos oprimidos e marginalizados, tem sido fonte de libertação e vida para muitos, incluindo mulheres. Quando aplicada à igreja, nós, como comunidades de fé, podemos ser um lugar de boas-vindas, amor, moderação e libertação. “Que homens e mulheres reflitam nossa constituição humana original… criados à imagem e semelhança de Deus”, exorta Elsa Tamez.[6]

Jesus nos deixou o melhor modelo. Precisamos ser humildes e reconhecer que falhamos como igreja. Não podemos retroceder no tempo e apagar tudo o que poderia ter sido evitado, mas a boa notícia é que podemos mudar a realidade de muitas mulheres daqui para frente.

Notas

  1. Nota da Editora: O Compromisso da Cidade do Cabo, https://lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/ctc/compromisso, Seção II F 3, sobre “Homens e Mulheres em Parceria”, reconhece as diferentes interpretações bíblicas no Movimento de Lausanne a respeito dos papéis específicos de homens e mulheres, mas oferece princípios para o engajamento positivo em favor do evangelho.
  2. Nota da Editora: No cristianismo evangélico, há uma gama de posições teológicas sobre o relacionamento entre homens e mulheres – incluindo algumas descritas como complementarismo e igualitarismo. Por algumas perspectivas, uma aplicação literal de algumas passagens pode resultar na diminuição da dignidade das mulheres.
  3. Robert Dilts, Changing Belief Systems with NLP (California: Dilts Strategy Group, 2018).
  4. Nota da Editora: Veja o artigo de Mary Ho, intitulado “A Cultura Transcendente do Servo-Líder”, na edição de março/2020 da Análise Global de Lausanne, https://lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2020-03-pt-br/a-cultura-transcendente-do-servo-lider.
  5. Elsa Tamez, ‘Hermeneutical Guidelines to understand Ga 3.28 and Co 14.34’, Journal of Latin American Biblical Interpretation (1993): 10.
  6. Catalina F. de Padilla and Elsa Tamez, The man-woman relationship in Christian perspective (Buenos Aires: Kairós, 2002), 44.

Analía Saracco é Diretora de Capelania do Instituto Teológico FIET (Faculdade Internacional de Educação Teológica), com sede na Argentina. Ela atua como Diretora Assistente do Lausanne para a América Latina e como membro do ministério “Juntas no Caminho”, que oferece apoio para mulheres vítimas de abuso. Tem licenciatura em Relações Públicas pela Universidade Argentina da Empresa e um Mestrado em Teologia pelo Seminário Sul-Africano de Teologia.

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