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A Índia é conhecida por sua diversidade, cultura pluralista e espiritualidade. No entanto, vimos recentemente vários casos de violência religiosa entre hindus e muçulmanos e, nos últimos 20 anos, uma violência significativa perpetrada também contra siques e cristãos.[1] A diversidade e a própria dimensão do país têm servido de baluarte contra a ampla disseminação da violência. Entretanto, desde a década de 1990, o partido majoritário hindu Bharatiya Janata (Partido do Povo Indiano) ou BJP, atualmente no poder, e sua fonte ideológica, o Rasthtriya Swayamsevak Sangh (Grupo Nacional de Voluntários) ou RSS, promoveram dois princípios que resultaram na discriminação contra os não hindus e o sistema de castas indiano.

A Índia é conhecida por sua diversidade, cultura pluralista e espiritualidade. No entanto, vimos recentemente vários casos de violência religiosa entre hindus e muçulmanos e, nos últimos 20 anos, uma violência significativa perpetrada também contra siques e cristãos.

A primeira ideia promovida pelo BJP e pelo RSS é a uniformidade e conformidade com o que eles imaginam ser uma hindu Rashtra (nação hindu), uma proposta que prioriza os adeptos da fé comumente e equivocadamente chamada de hinduísmo e a cidadania de segunda classe para não hindus. O RSS também promove o Hindutva,[2] uma perspectiva política da tradição de fé conhecida como hinduísmo, com base nos princípios do Manusmriti. Este antigo código baseia-se na crença na supremacia do homem brâmane e na inerente desigualdade de outros seres humanos abaixo dele, classificados pelo nascimento em casta e ocupação específicas, e também, é claro, pelo gênero, que é a base do sistema de castas na Índia.[3]

A formação da Índia moderna

Na época, a formação da Índia como um estado-nação secular foi uma conquista notável. Recém-saído de duas guerras, o mundo estava farto de conflitos e confrontos. A transferência relativamente tranquila de poder do controle britânico para o indiano foi alcançada por meio de negociações políticas, prejudicada, no entanto, pela violência que resultou da divisão do subcontinente indiano em dois países, Paquistão e Índia. Em pouco tempo, o governo recém-formado começou a redigir uma constituição por meio de uma Assembleia Constituinte chefiada por um dos mais brilhantes talentos jurídicos da época, o Dr. B. R. Ambedkar. Os projetos de constituição apresentados foram discutidos pelos membros e finalizados, artigo por artigo.

Os debates da Assembleia Constituinte foram minuciosos e sistemáticos, e as questões controversas foram discutidas a ponto de se esgotarem antes que decisões fossem tomadas. Um dos debates mais importantes, conforme registrado nos trabalhos da Assembleia Constituinte, foi sobre o direito de liberdade religiosa. Os membros fundadores discutiram o tema à luz da necessidade de autonomia das religiões e do compromisso com a justiça social, tendo em mente que a liberdade religiosa e um governo ordenado devem andar lado a lado. A Assembleia Constituinte era firmemente favorável a um Estado laico e não religioso e ofereceu a cada pessoa a liberdade de religião.

O artigo 25 da Constituição da Índia afirma:

  1. Sujeitas à ordem pública, moralidade e saúde e às demais disposições desta Parte, todas as pessoas têm igual direito à liberdade de consciência e ao direito de professar, praticar e propagar a religião livremente.
  2. Nada neste artigo afetará a operação de qualquer lei existente ou impedirá o Estado de fazer qualquer lei—
    1. que regule ou restrinja qualquer atividade econômica, financeira, política ou outra atividade secular que possa estar associada à prática religiosa.[4]

A Constituição da Índia coloca a religião sob os governos central e estaduais. Os estados podem criar leis, mas em caso de conflito entre elas, prevalecerá a lei central; assim, todas as legislações estaduais que tratam da religião exigiriam a aprovação presidencial para serem sancionadas. Neste momento, contudo, não há lei central sobre conversão religiosa. Os ideólogos do BJP se opuseram à constituição secular e escreveram de forma muito crítica sobre ela em sua publicação do partido, The Organizer. Eles alegaram que a verdadeira Constituição da Índia era o Manusmriti.[5]

A ascensão da violência entre comunidades

O nascimento da Índia foi marcado pela violência sectária causada pela divisão, quando áreas de maioria muçulmana no leste e oeste da Índia formaram um país chamado Paquistão, mais tarde dividido em Paquistão e Bangladesh. A violência deixou cicatrizes profundas na psique da nação. No entanto, durante as primeiras décadas da República da Índia, os líderes políticos se concentraram na construção da nação, na autossuficiência econômica e agrícola e, apesar de duas guerras com o Paquistão e uma com a China, foram capazes de promover algum senso de equilíbrio e de liderança voltada para o futuro. A Índia sob o comando de Jawaharlal Nehru era vista como uma liderança moral em um século 20 dilacerado por conflitos.

No entanto, as sementes do que alguns chamariam de projeto fascista Hindutva, semeadas no início do século 20, começaram a germinar nos anos 1970 e 1980. O BJP conquistou seus primeiros assentos no parlamento, apenas dois, em 1984. Entretanto, em 1989, esse número subiu para 85, depois de uma campanha nacional turbulenta, conduzida pelo então presidente L. K. Advani, que, em seu rastro, despertou a violência entre comunidades. Essa campanha provocou uma onda que culminou na demolição da mesquita Babri, em 1996, construída no suposto local de nascimento da divindade Lord Ram, em Aiódia, Uttar Pradesh, um estado do norte da Índia, na fronteira com o Nepal.

O sucesso eleitoral do partido nunca diminuiu, com a contagem subindo de forma constante para os atuais 303 assentos em uma Câmara de 543. As eleições de 2004 e 2009 viram a formação do governo de coalizão liderado pelo Congresso Nacional Indiano, mas em 2014, o atual primeiro-ministro, Narendra Modi, chegou ao poder após uma descomedida campanha nas redes sociais, e foi reeleito em 2019. Vários distúrbios contrários às minorias ocorreram em todo o país, especialmente nos estados governados pelo BJP. Em 2007, o BJP estabeleceu um governo de coalizão com o Janata Dal (secular) em Karnataka, um estado do sul da Índia.

Esse movimento gerou instabilidades, pois a força eleitoral do BJP sempre esteve na região central hindi, ou seja, norte e oeste da Índia. O sul, culturalmente diferente de outras regiões da Índia, resistiu à onda hindutva do norte devido à sua diversidade – sua língua e seus habitantes são etnicamente mais dravidianos. Em comparação com o restante da Índia, exceto pelas cidades costeiras e capitais políticas, as históricas ligações marítimas, comerciais e políticas com países de ambos os lados da península criaram uma sociedade mais igualitária com maiores realizações socioeconômicas e maior acesso à educação, devido ao grande número de escolas e faculdades fundadas no período colonial por moradores locais e missionários.

São necessárias abordagens inovadoras, que usem habilidades interpessoais, métodos digitais, música e criatividade para compartilhar o evangelho e discipular os convertidos. Precisamos orar e buscar a orientação do Espírito Santo.

A minoria cristã em uma Índia pluralista

A pluralidade da Índia é observada na diversidade de religiões, línguas e culturas, na variedade presente na música, arte, arquitetura, literatura, dança, escultura, nos produtos metalúrgicos, têxteis e na culinária do país. Tanto o cristianismo quanto o islamismo chegaram à Índia alguns anos após sua fundação. Em séculos anteriores, pársis, judeus, cristãos ortodoxos da Síria e muçulmanos chegaram à costa sul da Índia, estabeleceram-se pacificamente ali e prosperaram. Há uma abundância de tradições de fé e de sistemas de crenças locais em todo o país, muito embora o budismo e o jainismo tenham sido as tradições mais amplamente seguidas até que os estudiosos brâmanes conquistassem reis poderosos e seus cortesãos e ganhassem ascendência nas esferas política, religiosa, social, cultural e linguística do período pré-colonial.

A chegada dos portugueses em 1498 desencadeou uma série de acontecimentos vagarosos, porém cataclísmicos. Os portugueses foram seguidos por holandeses, britânicos e franceses, que vieram em busca de rotas comerciais. Finalmente, os britânicos conquistaram ascendência política e se tornaram governantes de grande parte do território por quase dois séculos, terminando em 1947.

Por mais de 100 anos, os britânicos se opuseram ao trabalho religioso, oferecendo algum apoio nos últimos anos somente aos missionários, porém os portugueses foram agressivos na divulgação da fé católica em ambas as regiões costeiras onde estavam bem enraizados. Sua influência principalmente em sua base em Goa, na costa oeste, perdurou até 1961, quando o governo indiano finalmente usou a força para despejá-los e tomar o território após anos de esforços diplomáticos de Nehru e as dificuldades dos habitantes locais para desalojá-los. Goa ainda tem cerca de 25% de cristãos segundo o censo populacional de 2011.[6]

O World Christian Database mostra que, em 2020, a Índia tinha 73% de hindus, 14% de muçulmanos e 5% de cristãos – em 2011 havia 2%.[7] Em toda a Índia há um número significativo de setores marginalizados que incluem cerca de 8% de nativos locais, conhecidos oficialmente como Scheduled Tribes (ST) [Tribos Programadas], e cerca de 18% de Scheduled Castes (SCs) [Castas Programadas], embora distribuídas de forma desigual, hoje também recebem o nome de Dalits.[8] O governo pró-hindutva teme que muitos SCs tenham se convertido ao cristianismo, e oito estados têm leis contrárias à conversão, muitas delas sob contestação na Suprema Corte. Com um número bastante significativo de muçulmanos e cristãos, eles temem que essas seções provavelmente não apoiem o projeto político de Hindutva. Assim, eles censuram os muçulmanos pelo comércio e consumo de carne bovina, ou os classificam como “terroristas”. Os cristãos estão sendo falsamente acusados e atacados por converter pessoas à força por meio de “fraude e sedução”.

Repensando o testemunho cristão

Os cristãos na Índia são conhecidos por seu trabalho na educação, saúde e na assistência aos deficientes, idosos e setores vulneráveis da sociedade e por isso desfrutam de muita benevolência. Por outro lado, o impacto negativo das questões de casta, classe, denominação, propriedade e violência de gênero contra as mulheres na igreja tem prejudicado a imagem dos cristãos e até afetado seu testemunho. Além disso, a ascensão de televangelistas e seus imensos “impérios”, bem como o uso de linguagem descomedida contra outras religiões por parte de alguns pregadores entusiastas, têm indignado muitas pessoas.

Os missionários precisam repensar o evangelismo. Não é mais viável visitar escolas ou hospitais para distribuir exemplares do Novo Testamento.

Os missionários precisam repensar o evangelismo. Não é mais viável visitar escolas ou hospitais para distribuir exemplares do Novo Testamento. Atividades evangelísticas populares, como entregar folhetos ou fazer acampamentos de verão para crianças, já não são fáceis de realizar. Em algumas áreas, casas onde há reuniões de oração com canto congregacional atraem ativistas violentos. Até mesmo os cultos de domingo de manhã em espaços alugados – realizados por pequenas igrejas independentes – estão sendo combatidos.

São necessárias abordagens inovadoras, que usem habilidades interpessoais, métodos digitais, música e criatividade para compartilhar o evangelho e discipular os convertidos. Precisamos orar e buscar a orientação do Espírito Santo. Precisamos conceber um evangelismo contextual e culturalmente integrado, pois há resistência contra uma abordagem mais arrojada preconizada por alguns evangelistas. Devemos encorajar jovens e idosos a ingressar como fazedores de tendas em áreas como música, cinema, escrita criativa, governo e mídia? Devemos considerar o aprendizado mútuo das novas abordagens usadas por influenciadores e defensores de políticas nas redes sociais?[9]

Notas finais

  1. Chronology of communal violence in India”, Hindustan Times, Fevereiro 26, 2022, https://www.hindustantimes.com/india/chronology-of-communal-violence-in-india/story-jJtcgvxFYh5N3jhS w7H4KN.html.
  2. A palavra aparece no título de um panfleto escrito por Vinayak Damodar Savarkar, um dos fundadores do RSS. Publicado originalmente em 1923 como “Essentials of Hindutva”, foi relançado com o título “Hindutva:Who is a Hindu?” disponível em: https://archive.org/details/hindutva-vinayak-damodar-savarkar-pdf.
  3. P.B. Sawant, “The Manusmriti and a Divided Nation”, The Wire, Novembro 16, 2020, https://thewire.in/caste/manusmriti-history-discrimination-constitution.
  4. https://www.constitutionofindia.net/constitution_of_india/fundamental_rights/articles/Article%2025.
  5. P.G. Ambedkar, “The ‘Neech’ Debate: Here’s What Manu-Smriti, a Favourite of RSS, Has to Say About it”, Newsclick, Dez 11, 2017, https://www.newsclick.in/neech-debate-heres-what-manu-smriti-favourite-rss-has-say-about-it.
  6. https://www.indiacensus.net/states/goa. “All India Religion Census Data 2011” está disponível aqui, https://www.indiacensus.net/. O censo populacional de 2021 foi adiado devido à pandemia.
  7. World Christian Database, https://worldchristiandatabase.org/.
  8. “The Indian Dalits attacked for wearing the wrong shoes”, BBC News, Junho 19, 2018, https://www.bbc.com/news/world-asia-india-44517922.
  9. Nota da Editora: leia o artigo intitulado “A ascensão do fundamentalismo hindu”, na edição de maio/2019 da Análise Global de Lausanne, https://lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/agl-pt-br/2019-05-pt-br/ascensao-fundamentalismo-hindu

Crédito das fotos

Photo by Tofin Creations on Unsplash

“Oriental Orthodox church in India collects palm fronds for the Palm Sunday” from ‘English Wikipedia‘ by MasalaiMasalaiMasalai (CC BY-SA 3.0).

“Remains of a church property burnt down during communal violence in Orissa in August 2008” by All India Christian Council

Cynthia Stephen é pesquisadora, analista e jornalista independente da área de políticas sociais. Preside o Training, Editorial and Development Services Trust (TEDS Trust) com sede em Bangalore, Índia. É uma palestrante conhecida por tratar questões de gênero, política e desenvolvimento. Liderou projetos de empoderamento legal e o acesso à justiça das mulheres. Como minoria religiosa e membro da comunidade dalit, Cynthia fala frequentemente sobre as questões das mulheres a partir da perspectiva não reconhecida de mulheres e meninas de comunidades marginalizadas.

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