Global Analysis

A interação da Igreja evangélica entre o Global e o Local

Um relatório resumido dos encontros virtuais de escuta do Lausanne 4

Steve Sang-Cheol Moon nov 2022

Introdução

A liderança do Movimento de Lausanne tomou a iniciativa de realizar encontros virtuais de escuta, convidando líderes evangélicos (doravante denominados líderes) de todo o mundo divididos por região e rede temática, em preparação para o Quarto Congresso de Lausanne a ser realizado em Seul, Coreia do Sul, em 2024. Foram realizados 12 encontros regionais com os líderes de cada região, além de outros 24 encontros envolvendo 23 redes temáticas e a rede Geração de Líderes Jovens (GLJ). encontros ocorreram entre setembro de 2020 e julho de 2021 e os líderes de cada grupo foram os responsáveis pelas anotações.

Os dados qualitativos das anotações foram analisados pela Equipe Global de Escuta de acordo com os procedimentos da teoria fundamentada. O processo analítico indutivo foi realizado em três etapas seguindo a estratégia de codificação de Kathy Charmaz: codificação inicial (codificação linha a linha), codificação focada e codificação teórica.[1] Para a codificação e análise foi usado um software QDA (qualitative data analysis) chamado NVivo, um produto da QSR International.

As anotações se basearam nas respostas a cinco perguntas que nortearam os encontros de escuta:

1) Quais são as lacunas e oportunidades missionárias restantes mais significativas para o cumprimento da Grande Comissão?

2) Na sua opinião, que avanços e inovações promissores podem acelerar o cumprimento da Grande Comissão?

3) Em quais áreas uma maior colaboração é mais crítica para o cumprimento da Grande Comissão?

4) Onde há mais necessidade de pesquisa?

5) Quem mais deveríamos ouvir como parte desse processo?

Visão geral dos relatórios regionais

Os temas dominantes que surgiram dentro da categoria da primeira pergunta – sobre lacunas e oportunidades restantes – foram:“necessidade de discipulado”, “alcançar as gerações mais jovens”, “amor e unidade”, “diversidade na liderança”, “igrejas que não se envolvem com o mundo exterior” , “os grupos de povos não alcançados restantes (UPGs)”, “avanço do islamismo e necessidade de evangelização de muçulmanos”, “crise ambiental e cuidado com a criação”, “falta de missões transculturais”, “falta de contextualização” e “necessidade de ministérios para o mercado e local de trabalho”.
Os temas dominantes analisados dentro da categoria da segunda pergunta – sobre os avanços e inovações – foram:“uso de novas tecnologias e mídias por ministérios”, “movimentos missionários locais” e “avanços e inovações no ministério”.
Os temas dominantes na categoria da terceira pergunta – sobre colaboração – foram: “necessidade de colaboração” e “Movimento de Lausanne como plataforma”.
Os temas importantes que surgiram em relação à categoria da quarta pergunta – sobre pesquisa – foram: “diáspora e imigrantes”, “contexto sociocultural do ministério”, “o impacto da pandemia de COVID-19 no ministério”, “grupos de povos não alcançados (UPGs)”, “contextualização da teologia”, “crescimento da igreja”, “colaboração entre igrejas”, “geração Z e gerações mais jovens” e “liderança”.
Os temas importantes pertencentes à categoria da quinta pergunta – sobre quem mais ouvir – foram: “Geração Z e mais jovens”, “o Espírito Santo”, “missionários no campo”, “pastores e líderes da igreja”, “incrédulos e pessoas de outras religiões”, “um ao outro”, “mulheres”, “vozes acadêmicas”, “povos locais” e “líderes políticos”.

Visão geral dos relatórios de rede temática

A análise por meio da codificação linha a linha dos 24 relatórios resultou em um total de 247 códigos temáticos. A codificação e análise focalizadas foram direcionadas aos 59 códigos comumente abordados em quatro ou mais encontros virtuais de escuta da rede temática.

Os temas dominantes que surgiram relacionados à categoria da primeira pergunta foram: “necessidade de discipulado”, “envolvimento dos jovens”, “amor, unidade e parceria”, “aceitação de novos ministérios (externos) pelas autoridades da igreja”, “falta de perspectiva holística”, “falta de contextualização”, “igrejas que não se envolvem com o mundo exterior”, “treinamento de obreiros e líderes”, “lacuna de recursos”, “igrejas que não usam tecnologias e mídias contemporâneas”, “lacuna de visão e confiança”, “grupos de povos não alcançados (UPGs)”, “barreiras linguísticas e tradução da Bíblia” e “legislação e política anticristã”.

Os temas importantes na categoria da segunda pergunta foram: “novas tecnologias para ministérios”, “avanços no ministério”, “maior despertamento nas igrejas”, “igrejas e líderes mais unidos”, “movimentos missionários locais” e “formação de novos líderes”.

Os temas dominantes na categoria da terceira pergunta – sobre colaboração – foram: “necessidade de colaboração”, “Lausanne como plataforma” e “necessidade de compartilhar informações”.

Os temas importantes pertencentes à categoria da quarta pergunta foram: “pesquisa sobre as melhores práticas”, “pesquisa mais empírica”, “pesquisa sobre ministérios evangelísticos”, “pesquisa sobre grupos de povos não alcançados (UPGs)”, “pesquisa sobre captação de recursos e fontes de financiamento”, “pesquisa sobre a geração Z e gerações mais jovens”, “pesquisa sobre o contexto sociocultural do ministério”, “pesquisa sobre o impacto da pandemia de COVID-19”, “pesquisa sobre compreensão bíblica de questões atuais” e “pesquisa sobre a contextualização da teologia”.

Os temas importantes na categoria da quinta pergunta foram: “geração Z e mais jovens”, “líderes do mundo majoritário”, “pessoas no campo”, “povos locais”, “pastores e líderes da igreja”, “mulheres”, “o Espírito Santo”, “incrédulos e pessoas de outras religiões”, “uns aos outros”, “líderes empresariais” e “diásporas e imigrantes”.

Síntese global e argumentação teórica

Um total de 391 códigos temáticos emergiu nas anotações dos grupos. Dentre os códigos temáticos, 115 ocorreram repetidamente em quatro ou mais anotações dos encontros.

Um total de 38 códigos emergiu em dez ou mais encontros, e seis códigos em 20 ou mais encontros. Os seis códigos foram os seguintes: “necessidade de colaboração” (36 encontros); “uso de novas tecnologias para ministérios” (29 encontros); “ouvir a geração Z e as gerações mais jovens” (27 encontros); “necessidade de discipulado” (25 encontros); “amor, união e parceria” (20 encontros); e “avanços nos ministérios” (20 encontros). Pode-se observar que a necessidade de colaboração foi enfatizada em todos os 36 encontros virtuais de escuta. Um total de 102 códigos focalizados (quatro ou mais grupos abordando a questão) surgiu em encontros tanto regionais quanto de redes temáticas.

Lacunas e oportunidades restantes

Ao abordar o tema da abordagem ao enfrentamento dos desafios pela igreja evangélica, enfatizou-se a importância do discipulado e do treinamento de obreiros e líderes do ministério. As abordagens fundacionais de discipulado e treinamento ministerial foram consideradas essenciais para facilitar a inovação no ministério.

Outra ênfase básica ao ensino cristão foi o amor, a unidade e a parceria. Os líderes pediram esforços instrumentados baseados no amor e na unidade cristãos que transcendem as origens denominacionais e as fronteiras organizacionais na abordagem dos diversos desafios enfrentados pelas igrejas evangélicas.

As respostas à pergunta sobre as lacunas ou oportunidades remanescentes na tarefa da igreja evangélica hoje enfatizaram o aspecto cumulativo de uma mudança de paradigma. [2] Os líderes queriam ver o conhecimento acumulado do ministério produzir mudanças na forma como os programas e atividades do ministério são realizados, em vez de buscar uma rápida mudança de paradigma nas abordagens ministeriais.

Avanços e inovações

Houve um consenso sobre a efetividade de tecnologias e mídias avançadas no ministério, respaldado por uma ampla evidência das novas possibilidades de inovações ministeriais que poderiam ser atribuídas ao uso de novas tecnologias e mídias. Uma observação partilhada por muitos dos líderes foi o fato de haver mudanças internas positivas perceptíveis dentro da igreja evangélica. Por exemplo, as igrejas e seus líderes estão mais unidos, o que pode ser explicado pelo surgimento de novos líderes inovadores.

O ministério de igrejas evangélicas e organizações cristãs está testemunhando avanços, conforme compartilharam os líderes de diversos ministérios. Para um avanço contínuo no processo de inovação, é fundamental envolver os jovens.

A questão das abordagens ministeriais inovadoras é um esforço para aumentar a relevância no ministério, que nada mais é do que parte da tarefa de contextualização. A inovação como processo criativo pode facilitar a contextualização neste mundo em constante mudança. As conversas dos líderes de forma geral, no entanto, parecem continuar adaptáveis às mudanças no ambiente do ministério, em vez de promover inovações revolucionárias de forma proativa e radical.[3]

Artigo

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Oito práticas para ouvir com humildade, amor e esperança


Colaboração

A necessidade de colaboração foi amplamente discutida em muitos grupos. A visão sobre o uso do Movimento de Lausanne como plataforma para colaboração global é bastante convincente. Os líderes expressaram um alto nível de confiança no Movimento de Lausanne e fizeram sugestões para ampliação de seu papel em diferentes níveis.

A ênfase no compartilhamento de informações é digna de nota, pois é a base para esforços mútuos de colaboração. Tais expectativas parecem ser extremamente construtivas para posicionar o Movimento de Lausanne não somente como facilitador, mas também como plataforma para colaborações ministeriais.

Pesquisa

Os líderes fizeram sugestões para pesquisas futuras que reflitam amplamente seus interesses e preocupações relacionadas aos seus ministérios. O tema da falta de pesquisa revela uma área de fragilidade na esfera das missões evangélicas. Houve esforços nesta área de ministério, mas as igrejas e organizações evangélicas não se mostraram unificadas e sistemáticas na abordagem das necessidades de pesquisa.

De modo geral, as discussões e sugestões para pesquisas futuras trazem à tona a importância da pesquisa empírica. As sugestões específicas para pesquisas futuras, bem como a solicitação de mais pesquisas, nos lembram da necessidade de uma abordagem realista na tarefa da teologia missional que envolva a pesquisa empírica com base em contextos humanos.[4] Compartilhar os resultados da pesquisa de forma eficaz com a igreja global seria uma forma de servir.

Quem mais?

É preciso pensar fora da caixa para ouvir as pessoas com eficácia. A ideia de ouvir o Espírito Santo é normativa na fé evangélica, porém muitos líderes estão muito ocupados ouvindo outras pessoas, principalmente as de outra denominação ou organização. Paralelamente, a escuta do Espírito Santo poderia acontecer como um exercício comunitário.[5]

Muitas das sugestões exigem uma abordagem interdisciplinar à escuta. As diversas áreas do conhecimento devem ser levadas em consideração. Em muitos casos, a escuta pode assumir a forma de pesquisa, pois a própria pesquisa é uma forma de escuta sistemática. Uma compreensão holística do conhecimento buscaria um estudo interdisciplinar de forma sistemática, em vez de uma abordagem compartimentada ou estratificada.

Conclusão

As lacunas e os desafios que estão diante da igreja evangélica são diversos e complexos. Os líderes, no entanto, estão bem cientes das questões e desafios a serem abordados em seus ministérios hoje. Eles não são excessivamente pessimistas em sua forma de ver seus ministérios. Estão testemunhando avanços com abordagens inovadoras no ministério em muitos contextos.

No geral, a “glocalização” está ocorrendo de forma ampla e profunda no ministério cristão. Muito tem sido discutido sobre esse tema ao longo dos anos, mas a “glocalização” rapidamente torna-se uma realidade com implicações práticas em muitos contextos ministeriais.

Um solene apelo à unidade na comunidade evangélica foi feito, uma necessidade muitas vezes compartilhada nos encontros virtuais de escuta. Um elevado sentimento de unidade foi observado em meio à diversidade de regiões, denominações e gerações. Paralelamente, era forte também o desejo de ver mais amor e unidade em diferentes fronteiras ministeriais.

O Quarto Congresso de Lausanne, programado para ser realizado em Seul, em 2024, deve ser usado como uma plataforma global tanto para a aliança estratégica contínua entre ministérios quanto para a instrumentalização especial de inovação nos ministérios. Uma abordagem plurianual policêntrica é razoável levando em consideração a complexidade das questões enfrentadas pela igreja evangélica. O esforço para ouvir foi um bom passo à frente, e a sabedoria coletiva compartilhada nos encontros virtuais de escuta nos faz lembrar da promessa do Espírito Santo que opera por meio de abordagens criativas no ministério.[6]

Notas finais

  1. Kathy Charmaz, Constructing Grounded Theory, 2nd Edition (Londres: SAGE, 2014). O ponto central da abordagem da teoria fundamentada é produzir uma teoria como resultado do processo analítico indutivo de dados qualitativos. As noções de Charmaz de codificação inicial, codificação focalizada e codificação teórica são sugestões proveitosas no paradigma construtivista da teoria fundamentada.
  2. Larry Laudan, Progress and Its Problems: Towards a Theory of Scientific Growth (Califórnia: University of California Press, 1977), 139. Por favor, consulte também Larry Laudan, Science and Relativism: Some Key Controversies in the Philosophy of Science (Chicago e Londres: The University of Chicago Press: 1990), 1-32; Larry Laudan, Beyond Positivism and Relativism: Theory, Method, and Evidence (Boulder, CO: Westview Press, 1996), 21-25.
  3. No entanto, a inovação criadora de mercado é tão necessária quanto a inovação sustentável ou de eficiência. Veja Bryan Mezue, Clayton Christensen, & Derek van Bever, “The Power of Market Creation: How Innovation Can Spur Development”, Foreign Affairs, Janeiro/Fevereiro 2015,https://www.foreignaffairs.com/articles/africa/2014-12-15/power-market-creation.
  4. Paul Hiebert, The Gospel in Human Contexts: Anthropological Explorations for Contemporary Missions (Grand Rapids: Baker Academic, 2009), 44-53, 127.
  5. P. G. Hiebert entende o Concílio de Jerusalém descrito em Atos 15 como o modelo bíblico de uma comunidade hermenêutica no sentido de que a igreja primitiva estabeleceu um processo teológico ao invés de produzir declarações dogmáticas. Hiebert, P. G. (1994). Anthropological Reflections on Missiological Issues. Grand Rapids: Baker. p. 95.
  6. Este artigo é um resumo do relatório analítico sobre os encontros virtuais de escuta. Sua versão completa pode ser acessada no site do Movimento de Lausanne: https://lausanne.org/l4/global-listening/the-evangelical-church-interacting-between-the-global-and-the-local