Disponível em: English (Inglês) | Français (Francês) | Português | Español (Espanhol) |

Embora o século 21 tenha apenas 20 anos, mudanças já são a marca registrada do cenário da igreja britânica. Antes do ano 2000, a avaliação geral da igreja foi resumida como: “em declínio”. Apesar de alguns ainda usarem essa expressão, se olharmos mais a fundo a história é diferente.

Nos últimos 50 anos, o quadro pode ser resumido pelo seguinte gráfico, sendo 2025 uma estimativa:

Membros das igrejas no Reino Unido de 1975 a 2025

Presbiterianos Católicos Romanos  Anglicanos Igrejas não-institucionais

A tendência geral é clara. Os anglicanos viram o declínio de todas as suas medidas básicas, seja o cadastro eleitoral, a frequência dominical, ou o comparecimento médio semanal. Em 2012, foi introduzida uma nova medida – a comunidade de adoração – uma contagem de todos aqueles associados a uma determinada igreja. Apesar do crescimento entre 2012 e 2015, desde então o número total vem caindo lentamente, mesmo assim, ainda conta com 1,1 milhão de pessoas, demonstrando o contato ativo da igreja com 2% da população.

A Igreja Católica Apostólica Romana, tem visto uma queda na frequência às missas, em parte por causa de escândalos, mas também em decorrência da falta de padres, apesar da exigência de que eles continuem a trabalhar até os 75 anos de idade. A Igreja Presbiteriana, formada em sua maioria pela Igreja da Escócia, tem visto sua maior taxa de queda, em parte porque algumas igrejas a deixaram devido às mudanças constantes em sua teologia, e outras tensões internas.

Embora o século 21 tenha apenas 20 anos, mudanças já são a marca registrada do cenário da igreja britânica.

Estas três grandes igrejas institucionais constituíam 74%, três quartos do total de 6 milhões de membros da igreja no ano 2000, praticamente exatos 10% da população do Reino Unido naquele ano. Vinte anos depois, em 2020, esses mesmos três grupos constituíam apenas 64% do total, com uma redução para 4,8 milhões, ou 7,1% da população. Isso mostra algo do aumento das denominações que não fazem parte das grandes denominações.

Os três grupos institucionais incluem denominações semelhantes menores que também são contadas. Os Anglicanos, por exemplo, têm a Igreja Anglicana Livre e a mais recente Missão Anglicana na Inglaterra (com números pequenos em seu site em 2020, mas com planos de plantar 250 igrejas até 2050). Os Católicos Apostólicos Romanos começaram uma miríade de capelanias estrangeiras (35 somente sob a diocese de Westminster) que atendem imigrantes de países católicos, e há outras 15 denominações presbiterianas menores incluídas sob a Igreja da Escócia.

Os três grupos denominacionais de Anglicanos, Católicos e Presbiterianos, incluindo as sub-denominações de cada um, compõem 64% do total de membros de igreja. Entretanto, o número total de todas as denominações maiores e menores desses grupos representa apenas um quinto, 21%, de todas as muitas denominações realmente existentes no Reino Unido!

Declínio de grupos denominationais de 2000-2020

Batistas

-26%


Metodistas

-50%


Open Brethren

-23%


Exclusive Brethren

-34%

As igrejas não-institucionais

O quarto grupo no gráfico, as igrejas não-institucionais, é, no entanto, muito significativo. Analisando de perto, vemos que ele vem crescendo desde a virada do século. Dos seis grupos denominacionais do grupo principal, três estão em declínio (Batistas, Metodistas e Independentes) e três crescem rapidamente – a igreja Ortodoxa (que em alguns países conta como institucional), os Pentecostais e outras denominações menores.

Os grupos denominacionais em declínio

Os Batistas tiveram diminuição de um quarto (26%) nos 20 anos entre 2000 e 2020 e os Metodistas diminuíram exatamente metade, 50%. Em contraste, os Independentes cresceram entre 2000 e 2010 (de 355 mil para 395 mil), mas diminuíram novamente (para 358 mil em 2020), mesmo número que tinham no ano 2000. Por que o crescimento do início do século das igrejas independentes foi perdido nos anos mais recentes? Esse grupo inclui as igrejas congregacionais, sendo a maior delas a Annibynwyr (união das igrejas independentes do País de Gales), que teve seus números reduzidos pela metade desde o ano 2000, caindo para 17.500 em 2020. Os Independentes também incluem a Christian Brethren, cujos grupos diminuíram: a Open Brethren em 23%, para 59 mil em 2020, e a Exclusive Brethren em 34%, para 13 mil. Além disso, os independentes incluem as muitas Igrejas Novas, como foram chamadas, compostas de linhas como Vineyard, Newfrontiers, Salt and Light (Sal e Luz), Pioneer, Ichthus e outras. Entre 2000 e 2010 elas cresceram de 46 mil para 69 mil, mas desde então, o número reduziu para 61 mil, especialmente com a interrupção das iniciativas de implementações de novas igrejas, seu maior método de crescimento.

As Igrejas Ortodoxas tiveram uma história bastante turbulenta nos últimos 50 anos

Os três grupos denominacionais em crescimento

Em primeiro lugar, as Igrejas Ortodoxas tiveram uma história bastante turbulenta nos últimos 50 anos. A maior no Reino Unido, a Igreja Ortodoxa Grega, que corresponde a quatro nonos, ou 44% do total de 480 mil membros de Igrejas Ortodoxas no Reino Unido, cresceu entre 1975 e 2000, mas se mantém estática desde então. A Igreja Ortodoxa Russa cresceu muito rapidamente de 1975 (3 mil no Reino Unido) para 40 mil até 2000, e mais do que dobrou, para 90 mil, até o ano 2020. Mas com as regulamentações da UE permitindo a entrada de romenos no Reino Unido em 2008, o número de romenos no Reino Unido, segundo o censo populacional, passou de 83 mil em 2011 para estimados 430 mil em 2019. [1] A edição de 2020 da World Christian Encyclopaedia (Enciclopédia Cristã Mundial, em tradução livre) afirma que 89% dos romenos são ortodoxos, e embora apenas alguns destes sejam membros ativos da igreja enquanto estão no Reino Unido, os números são suficientemente altos para a estimativa de que 103 mil sejam membros da igreja, embora apenas cerca de 3% a frequentem. Todos eles fazem parte das Igrejas Ortodoxas Orientais, no total de 90% de todos os ortodoxos no Reino Unido, sendo os ortodoxos orientais responsáveis pela maior parte do restante. Embora 100 novas Igrejas Ortodoxas tenham sido abertas entre 2000 e 2020, seu principal crescimento tem sido no aumento das congregações existentes.

Crescimento Pentecostal de 2000 a 2020

2.5-
4.2K

congregações

Em segundo lugar, as Igrejas Pentecostais no Reino Unido cresceram subitamente nos últimos 20 anos, de 2.500 congregações em 2000 para 4.200 em 2020. O dr. Joe Alfred, um observador importante, ex-presidente de relações multiculturais da Churches Together, na Inglaterra, acredita que existem literalmente outras milhares de igrejas que não foram contadas, talvez até o dobro do número acima. A abertura de novas igrejas foi mais vista em Londres, onde mil congregações em 2005 se tornaram 1.450 em 2012! A frequência nas Igrejas Pentecostais em Londres em 2012 representou 62% da frequência total em Igrejas Pentecostais de toda a Inglaterra naquele ano! Muitas delas são igrejas de membros negros.[2]

A plantação de igrejas tem recebido apoio da Redeemed Christian Church of God (RCCG), uma denominação internacional de peso que começou na Nigéria em 1952 e veio para o Reino Unido em 1993. Entre sua chegada e 2020, já tinha 865 igrejas.[3] A RCCG chama suas igrejas de “paróquias”, usando, basicamente, o mesmo modelo das igrejas institucionais: você mora próximo a nós, por que não se une a nós?

Denominações menores por número de membros

Exército da Salvação

31K


Adventistas Do Sétimo Dia

38K


Luteranos

34K


Quakers

13K


Igrejas da Diáspora

46K

O setor Pentecostal, entretanto, não está limitado às grandes denominações como a RCCG (um pouco mais de 72 mil pessoas), Elim Pentecostal (pouco menos de 72 mil) e as Assemblies of God (Assembleias de Deus) (48 mil), as três maiores, seguidas por Hillsong (cerca de 17 mil), mas inclui literalmente centenas de igrejas que, sem exceção, são totalmente independentes e de membros negros, ou grupos muito pequenos (denominações?) de três ou quatro igrejas. Eles estão iniciando novas igrejas em cada um dos quatro países constituintes do Reino Unido. Há um entusiasmo, um impulso centrado no evangelho, uma vontade de ajudar e servir em muitas dessas congregações.[4]

Em terceiro lugar, outro grande grupo denominacional que está crescendo é o das denominações menores, sendo a maior delas o Salvation Army (Exército da Salvação), enorme no início do século XX (170 mil em 1930), mas com cerca de 31 mil em 2020 e com frequência semanal na casa dos 25 mil, menor do que a dos Adventistas Do Sétimo Dia, que conta com uma frequência de 38 mil. O grupo inclui os Luteranos (16 denominações pequenas) totalizando 34 mil, os Quakers (13 mil), e a maioria das igrejas da diáspora, ou Overseas National Churches, com 46 mil membros ao todo em 2020.

A diáspora inclui igrejas asiáticas, europeias, indianas e muitas outras. Coletivamente, é esse o grupo de igrejas de denominações menores que está crescendo e o motivo é que, simplesmente, (em sua maioria) as igrejas evangélicas estão respondendo às necessidades da enxurrada de imigrantes que chegam ao Reino Unido.[5] O crescimento é visto principalmente na expansão das congregações existentes e não no início de novas congregações. Este atendimento aos que vêm do exterior é auto propagador.[6]

Igrejas em crescimento

O aumento de números de igrejas também é percebido em situações em que os líderes (muitas vezes de etnia branca) abrem novas igrejas em “lugares de necessidade”. A maioria delas é evangélica.[7] Há muitas organizações envolvidas na plantação de igrejas, e muitas igrejas grandes estão envolvidas em dar início ou ajudar na transformação de congregações existentes, como por exemplo a Holy Trinity, Brompton (HTB), que ajudou a renovar 50 igrejas, geralmente no centro das cidades.[8]

Entre 2015 e 2020, cerca de 880 igrejas foram abertas no Reino Unido[9] e outras 1.900 igrejas fecharam, sendo 540 delas metodistas, mas fechamentos ocorreram em todos os grupos denominacionais. Por isso, o crescimento é compensado pelo declínio.

A igreja pós-COVID

Os dados acima descrevem a igreja no início de 2020. O isolamento social começou em março daquele ano no Reino Unido, então como será o futuro pós-isolamento? A igreja, como um todo, teve que passar por uma experiência de aprendizado muito rápida e a curva para alguns tem sido muito íngreme.

Muitas igrejas têm se voltado para a transmissão via Internet ao vivo, ou transmitido vídeos pré-gravados de cultos, seja através do Zoom, YouTube, ou outros mecanismos semelhantes. Quando o jornalista Tim Wyatt comentou na edição de março de 2021 da Christianity, “O que teríamos levado dez anos em tempos normais – recuperar o atraso com a revolução digital – aconteceu em um ano” (tradução livre).

Há muitos relatos de pessoas que não frequentavam uma igreja e que se reuniram para assistir a um determinado culto.[10]

Alguns desses espectadores “desconhecidos” serão frequentadores de igrejas já existentes que estão “visitando virtualmente” uma igreja diferente e não pessoas ainda sem igreja. A proporção desses visitantes também é desconhecida, mas há relatos de conversão.[11]

Isso também será acentuado pelo fato de que muitas pessoas mais velhas, em especial os que residem em lares de idosos, terão achado preferível a conveniência de assistir ao culto em seus próprios quartos com uma xícara de chá a se locomoverem para a igreja e sentarem-se em um assento duro.[12] Mas haverá outro grupo, especialmente entre os idosos não-proficientes em tecnologia, que ficará muito feliz em voltar aos cultos presenciais normais.

No momento em que escrevemos, a pandemia tirou a vida de quase 130 mil pessoas. Em 2020, 4,9% da população ia à igreja. Essa porcentagem aplicada às mortes atribuídas à pandemia significa que cerca de 6 mil fiéis terão perdido a vida.[13]

Os comentários acima referem-se a adultos, e projeções de seu impacto na vida da igreja após a COVID sugere perdas relativamente pequenas daqueles com idades entre 20 e 60, mas provavelmente perdas muito mais pesadas (pessoas que não retornam) entre pessoas mais velhas (talvez 30%). E entre os jovens? Tim Wyatt diz que esta é uma área em que muitas igrejas têm perdido.[14]

Por outro lado, durante o isolamento social, muitas igrejas realizaram muito trabalho social, com bancos de alimentos, serviços de aconselhamento, entregas de medicamentos e de compras de supermercado, mantendo contato com as pessoas solitárias. O florescimento do servir pode levar a novas áreas de serviço para as igrejas locais, mas não sabemos como isso impactará a evangelização, a frequência na igreja e o crescimento.

A vida da igreja ainda tem muitos pontos fortes; as igrejas sofreram bastante nas últimas décadas; mas as oportunidades pós-COVID estão diante de nós. Talvez a palavra “oportunidade” venha a caracterizar a próxima década.

Notas

  1. População não-britânica no Reino Unido, Office for National Statistics (Gabinete de Estatística Nacional), 2015 a 2019, http://www.ons.gov.uk.
  2. Por que seu crescimento? A “missão é mais importante que a justiça”, explicou Dionne Gravesande, na época da Aliança Evangélica Afro-Caribenha.
  3. Esse crescimento foi encorajado pelo presidente de seu Conselho Executivo no Reino Unido, o pastor Agu Irukwu, líder da Jesus House for All Nations Church em Brent, Londres, com mais de 4 mil frequentadores em um domingo normal. Em 2015, eles tinham 188 igrejas em Londres; em 2018, tinham 214, de acordo com seu site. Seu objetivo básico é ter uma igreja “a 5 minutos de distância” (a pé ou de carro) de onde as pessoas vivem (no caso delas, principalmente nigerianos).
  4. Algumas têm instalações próprias, outras se reúnem em casas, mas a maioria aluga um salão para as reuniões (muitas vezes em um pub local) ou aluga/pega emprestado uma igreja local onde possam adorar, muitas vezes liderados por alguém com 30 ou 40 anos que trabalhe pastoreando/pregando em tempo parcial.
  5. Muitos se estabelecem na Inglaterra, e é por isso que este grupo está crescendo na Inglaterra, mas não nos outros três países do Reino Unido.
  6. Se alguém, por exemplo, da Croácia, vem ao Reino Unido para trabalhar e tem dificuldades com a língua inglesa de segunda a sábado, muito provavelmente irá a uma igreja croata que fala seu idioma no domingo, mesmo que não tenha frequentado a igreja quando morava na Croácia!
  7. Algumas são abertas por um indivíduo ou um pequeno grupo (43%), ou são uma iniciativa planejada de uma congregação existente (30%), ou de uma denominação (19%) ou outras formas (8%), de acordo com os resultados do Censo de Igrejas de Londres de 2012 (no livro Capital Growth).
  8. A congregação inicial de uma igreja recém-criada (que não seja da HTB) tem em média cerca de 28 pessoas, e muitas vezes esse número dobra nos primeiros 5 anos. Metade de seus líderes dedica-se em tempo integral, e o líder de uma nova igreja costuma ser mais jovem que os líderes das igrejas existentes (46 anos a 54 anos). O orçamento anual inicialmente é de cerca de £25.000, ou seja, £1.000 por membro. O resultado de tal plantio é um trabalho extremamente árduo, mas quando perguntados se fariam isso novamente, 97% dos líderes responderam “SIM”! Estas igrejas estão em todas as denominações, incluindo os grupos em declínio.
  9. Das quais 400 eram pentecostais, 240 independentes, 120 denominações menores, 80 católicas, 20 ortodoxas, 10 anglicanas e 10 presbiterianas.
  10. Estes números não são amplamente conhecidos, mas porcentagens como 20%, 50% ou mesmo 100% apareceram no resumo dos cultos. Não se sabe quanto tempo essas pessoas ficam realmente para assistir a um determinado culto, ou se ouvem o sermão.
  11. Assistir a um culto no conforto do seu próprio lar é muito menos intimidador do que entrar numa nova igreja e situação, e alguns espectadores talvez prefiram continuar a assistir em casa do que estar presencialmente nos cultos. Este é, portanto, um argumento para continuar a transmitir os cultos de alguma forma.
  12. Eles também prefeririam continuar com os cultos virtuais, mesmo que percam o companheirismo e amizade com os membros da congregação. Se essa é uma reação bíblica é outra questão!
  13. Embora seja uma grande perda, esse número dividido entre as 45 mil congregações ativas em 2020 no Reino Unido, indica que não haverá um grande impacto em muitas congregações, exceto em algumas das congregações menores e com mais idosos nas regiões rurais.
  14. Alguns líderes de jovens estão conseguindo criar vídeos regularmente para o YouTube ou apresentações em vídeo, algumas igrejas estão oferecendo estudos bíblicos pelo Zoom (“que são muito curtidos”, segundo um dos participantes conhecido/a do autor), mas igrejas menores e médias (das quais há milhares), sem esse tipo de apoio e encorajamento, podem ter dificuldade em recuperar seus jovens. “Uma grande queda no número de adolescentes envolvidos com a igreja só agravaria a queda dos números de comparecimento às igrejas”.

Photo credits

Photo by Alexander Watts on Unsplash

Photo by Joseph Pearson on Unsplash

O Dr. Peter Brierley é estatístico e ex-catalisador do Lausanne de Pesquisa e Informações Estratégicas. Ele coleta e analisa estatísticas da igreja há mais de 50 anos e hoje serve como consultor de igrejas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*